Clube do Livro: Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, de Elvira Vigna

Por Emannuel e Marília

[Aviso: teremos spoilers e esse é um livro em que isso faz diferença]

Marilia: Começando a resenha, já preciso dizer: que livro incrível! Acho que foi o melhor livro que li esse ano. Tive contato com a obra da Elvira Vigna no ano passado (“Nada a dizer”) e achei muito boa. Mas “Palimpsesto” superou demais minhas expectativas e tô absolutamente chocada com o fato de não ter ficado entre os três primeiros colocados na categoria Romance do Jabuti deste ano. Fiquei tão obcecada que já peguei outros dois livros dela da biblioteca para ler, hahaha.

Emannuel: Como crítico (se é que não é pedante demais usar essa palavra para mim mesmo), acho muito mais fácil falar sobre aquilo que não gosto do que sobre o que gosto, e vai ser muito difícil encontrar onde implicar com “Palimpsesto”. Conhecia a Elvira Vigna apenas de fama, nunca tinha lido um livro dela de verdade. Sabia que ela era conhecida por experimentalismos e coisas assim, o que fez com que já ficasse triste com a notícia de sua morte, mas depois de ler esse livro se acrescenta a isso também aquele sentimento de que seria tão bom ter mais livros dela… Do Jabuti nem me surpreendo, o Silviano Santiago fez o jogo seguro em Machado e levou. Por mais que o livro possa ser incrível, a premissa preguiçosa já faz com que me pareça um opção inferior à Elvira Vigna.

Marília: Sim, achava que o Santiago tinha grandes chances de ganhar. Mas a Vigna não ter ficado nem entre os três primeiros me deixou chateada. Bem, a sinopse é a seguinte: a narradora (que não sabemos exatamente quem é) reconta e analisa os relatos de João sobre sua vida extraconjugal. Não sabemos a relação entre os dois, a princípio. Sabemos que João viajava a trabalho e, nessas viagens, paga garotas de programa – e são os relatos desses encontros que ele passa para a narradora (cujo nome nunca chegamos a saber). Pode parecer esquisito porém o modo como Vigna faz isso é impressionante.

Basicamente, junto com os relatos, ou a partir deles, a narradora vai comentando sobre sua vida, a de João, e de todos os personagens que os cercam, unem e desunem. Não tem capítulos. O livro é organizado a partir dos relatos, em idas e vindas, análises, suposições, preenchimento de lacunas, interpretações. Dá um caminho bastante tortuoso e cheio de voltas sem que isso nos deixe cansados, frustrados ou desanimados a continuar. Pelo contrário, a construção de Vigna é tão boa, mas tão boa, que você quer entender melhor aqueles elementos lançados do nada no texto e que só vão aparecer de novo mais pra frente.

A história é um flashback, porque a narradora conta a partir de suas memórias, e dá pistas de alguns acontecimentos. No entanto, há idas e vindas nesse tempo recontado, recortado. As linhas que ligam os trechos (porque não tem capítulos, mas há espaçamentos entre um trecho e outro) são bem construídas. Tem um quê daquele mistério Agatha Christie, em que você quer saber quem é o assassino, embora não tenha crime algum na história. Nós, leitores, precisamos seguir, precisamos entender o que aconteceu.

[Agora com spoilers

Emannuel: E ela tem um dom especial de adiantar algumas informações que atiçam a nossa curiosidade, coisas pequenas mas que voltam mais para a frente e que dão uma profundidade enorme aos personagens e à narrativa como um todo. Um exemplo que funcionou particularmente bem comigo foi o fato de Mariana ser minha conterrânea, de Petrolina. Os detalhes fornecidos são esparsos, mas parecem reais o suficiente para me fazerem ficar pensando em lugares e situações reais da minha cidade. As pessoas ao redor da narradora e de João vão se infiltrando na história de um jeito que a gente nem percebe, aquela narrativa que parecia ser só dos dois vai se revelando um verdadeiro conjunto, e os personagens satélite em muitos sentidos acabam se revelando mais interessantes do que a dupla de ‘protagonistas’.

Marília: Senti a mesma coisa com a perambulância de João pelo baixo Augusta (pré-hype). E as personagens apresentadas são incríveis, mesmo, e acho que dão um todo aos “protagonistas”, inclusive pelas lacunas que deixam. Queria saber mais de Mariana e, ao mesmo tempo, acho tão bom o quão pouco sabemos de Mariana. Porque é uma marca explícita do tipo de relacionamento que tinham e, se soubéssemos mais, talvez não tivesse o mesmo efeito. Lurien é um personagem que me conquistou de primeira. E saber, depois, de seu relacionamento com João é um toque tão sensível, sutil e maravilhoso, embora corresponda a um clichê problemático, talvez – de o homem que trai a mulher só conseguir se relacionar de modo mais duradouro com outro homem.

Emannuel: Realmente, esse clichê pode ser problemático, mas ao mesmo tempo acho que é apresentado de uma forma no mínimo diferente do que normalmente vemos na literatura. Os clássicos estão cheios de relações homoafetivas entre homens heterossexuais, mas esse fato de destinarem o seu afeto a outros homens ao invés de às mulheres, o que pareceria avesso à sua sexualidade, quase nunca é questionado. Talvez essa seja uma crítica manjada? Talvez, mas raramente é apresentada de modo tão direto. E ao mesmo tempo mais complicado. Porque a narradora vê Lurien como homem, mas Lurien não se vê como homem. Ao menos não o tempo todo. Essa posição da narradora me confundiu um pouco, mas acredito que está justamente para que o surgimento dessa crítica seja possível.

Marília: Sim! Ao mesmo tempo, a narradora também deixa claro que Lurien está além de tudo isso, não segue os mesmos padrões da sociedade e toca um foda-se pra isso. Por isso não achei tão ruim se referir à personagem no masculino.

Emannuel: De certa forma, todo o romance se desenvolve em torno das múltiplas faces da masculinidade tóxica. Seja na busca por parte de João de uma salvação na figura das mulheres que nunca se realiza, pois ele ao mesmo tempo as idealiza e as objetifica, à necessidade que Cuíca tem de sempre se mostrar o macho alfa em relação aos colegas de trabalho. E isso inclui, é claro, os efeitos que isso tem sobre as mulheres. Mas, ao mesmo tempo, as personagens femininas não ficam como acessórios da elaboração de um tema masculino. Enquanto os homens são mais ou menos instrumentos de uma nota só, as personagens femininas são desenvolvidas em aspectos mais amplos. A já citada Mariana é um ótimo exemplo, ela não é nem a prostituta explorada, em situação de desespero, nem a femme fatale. Os momentos em que a narradora a retrata são sempre muito tenros, seus dilemas pessoais se sobressaindo apenas nas entrelinhas.

Marília: E é curioso contrapor essa construção no texto com a visão que João (e seus colegas) tem das mulheres, que é super aplainada. Elas não são seres complexos e com vontades próprias, são unidimensionais – e por isso podem ser colocadas todas umas sobre as outras no palimpsesto.

Emannuel: A própria relação que a narradora mantém com João é muito ambígua. Eu mesmo em nenhum momento consegui definir bem os sentimentos dela, as atitudes que teve sobre as histórias que ouvia. Por mais que tenha a impressão de ser uma versão ficcionalizada da Elvira Vigna (especialmente considerando seu background de artista plástica), ela não cai nos clichês de autores que costumam fazer isso. Primeiro por não ser uma coisa óbvia, mas também por não ser o real foco da história. A autora não se dá ao luxo de escrever um daqueles livros sobre o ato de escrever um livro ou sobre como é ser uma pessoa criativa ou baboseiras do tipo.

Marília: É engraçado que tanto nos livros que já li dela quanto no que estou lendo tenho a sensação de que Vigna é sempre a narradora. Pode ser apenas uma limitação minha. Porém suspeito que sua construção da narrativa em primeira pessoa (inclusive com essas  e idas e vindas) é tão bem feita que o sentimento de uma conversa íntima, uma confissão entre desconhecidas.

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