Manifesto anti-shorts

Por Emannuel

O verão está chegando. Já começou o mês de dezembro e as temperaturas só tendem a aumentar. Como alguém vindo das partes mais quentes do país, eu já deveria estar acostumado, mas não estou. No verão o transporte público se torna mais claustrofóbico do que já é, ao mesmo tempo que não usá-lo seria ainda mais frustrante, porque cinco minutos de caminhada são suficientes para gerar uma quantidade de suor que pode ser comparada a dar um mergulho no mar, só que sem a parte agradável. É justamente para minimizar esses rigores que muitas pessoas apelam para meios não convencionais. Pode ser um chapéu que bate em todo mundo, um leque que será olhado torto onde for (será inveja?) ou o mais comum e deplorável recurso dos shorts.

Os shorts serem aceitos socialmente em adultos é algo que nunca entendi muito bem. Sua imagem é imediatamente uma de infantilização, ninguém com mais 15 anos deveria usar shorts, e fazer isso é uma falta de estilo semelhante a usar comic sans. Os shorts e as bermudas são vestimentas feitas com objetivos expecíficos, o fato de serem reduzidas intimamente ligado a serem utilizados por crianças – literalmente pessoas que ainda não cresceram o suficiente para usar calças.

Não que seja uma regra sem exceções, é claro. Também são perfeitamente aceitáveis durante a prática de esportes. De fato, o que me inspirou nesse manifesto foi uma entrevista de Tom Ford. Além de diretor, conhecido por seu último filme, Animais Noturnos, Ford também é uma figura central no mundo da moda masculina contemporânea, coisa que eu não sabia mas faz todo o sentido para quem já viu o filme. Ao longo do artigo eu me peguei concordando com algumas declarações de uma figura com quem jamais poderia imaginar esse tipo de proximidade, como sua visão polêmica de que todos os homens devem ser penetrados em algum momento da vida, mas principalmente sua reação de estarrecimento ao ser perguntado se usa shorts, e a revelação de que só faz isso por ser obrigado a tal quando joga tênis. Pois bem, eu não pratico nenhum esporte, e por isso posso viver uma vida livre da necessidade que o diretor tem de se esconder.

Mas o short não é apenas o símbolo da infantilização de corpos adultos. Ou, antes, puxa essa questão não apenas para níveis estéticos, mas também para o ético. É aquela peça de roupa que une duas figuras típica das formas mais tóxicas de masculinidade: aquele homem de meia idade que tenta, com repulsividade variável, emular uma juventude que não mais tem, principalmente por motivos sexuais, tentando socializar com particularmente com mulheres muito mais jovens ou simplesmente fazendo piadas sem noção, aquele tio do pavê (que nunca se contenta com a infâmia natural a esse trocadilho, mas tem que reforçar o sentido sexual de ‘comer’). Sua contraparte é o homem jovem que sente necessidade de exibir sua masculinidade das formas mais óbvias possíveis. Provavelmente um desdobramento da cultura de disputa esportiva que coloca em conflito de forma serial uma grande quantidade de pessoas em idades formativas e as obriga a usar shorts ao fazê-lo, esse tipo de roupa acaba por se associar a uma permissividade daquele comportamento do macho que se esforça para ser o alfa; os shorts disseminam a locker room talk pelo mundo.

E isso para falar apenas do efeito que esse item tem no campo da moda masculina. Não saberia dizer se paralelos a esses processos poderiam ser encontrados também na moda feminina, mas ao menos na questão da infantilização a ligação entre ambas não parece estar muito distante.

Assim como qualquer tema cultural, e ainda mais por se relacionar ao corpo, a moda é um espaço amplo de subjetividades. Mas a utilização de seus símbolos, sua poética, é sempre algo social, que se configura dentro de uma determinada realidade histórica. Dizer que usamos shorts simplesmente por causa do calor é ignorar não só as alternativas materiais a isso mas como a existência de significados em como representamos nossa corporalidade.Se o jeito que escolhemos nos vestir é uma forma de nos comunicarmos, de transmitirmos uma ideia, o que dizem os shorts?

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