Sendo cri-cri: Cantando na chuva

Por Aline e Marília

Baseada no famoso filme de 1952, a adaptação aos palcos de Cantando na Chuva chegou ao Brasil no segundo semestre deste ano, e fica em cartaz até 17 de dezembro no Teatro Santander.

A história tem como pano de fundo a transição do cinema mudo para o falado. Don Lockwood e Lina Lamont são uma icônica dupla de atores de filmes mudos que sempre interpreta pares românticos – e há rumores, alimentados pelo estúdio, de que são namorados na vida real. Originalmente interpretado por Gene Kelly e, no Brasil, encarnado por Jarbas Homem de Mello, Don Lockwood é o típico galã de cinema: um sorriso maravilhoso, charmoso, talentoso e bem humorado. Já Lamont ganha vida com Claudia Raia, produtora do musical e parceira de Jarbas em tantas outras peças (momento Vídeo Show: eles são casados na vida real!). O estrelato da dupla, contudo, se vê ameaçado com a chegada dos filmes falados a Hollywood, dado que a voz de Lina é desesperadamente (e hilariamente) horrível.

Jarbas faz um excelente trabalho e não fica aquém de Kelly, o que não é dizer pouco: tem muita presença de palco, sapateia na chuva (sim, chove de verdade na peça! Os espectadores da primeira fileira inclusive recebem capas de chuva!) e canta muito bem. Com Raia, temos uma grata surpresa: manda muito bem na veia cômica. Seu vozeirão característico some e dá lugar a uma vozinha de taquara rachada quase irreconhecível (que deve ter exigido um belo treinamento vocal), além de todo seu trabalho de comédia corporal – com um ou outro toque exagerado proposital. O contraste é muito bom, dado que Lina é um mulherão, a grande atriz que todos desejam, e cuja voz simplesmente não “cabe” na imagem projetada pelo estúdio. O talento de Claudia nos musicais é conhecido mas a atriz deu um salto com esse papel.

Kate Seldon, uma jovem atriz, aparece em cena primeiramente como interesse não correspondido de Lockwood e, depois, como a dubladora de Lina. A ideia vem quando Seldon e Cosmo Brown, amigo e parceiro de Lockwood, procuram salvar o mais recente filme de Don e Lina – seu primeiro falado e, evidentemente, arruinado pela voz da estrela. Juntamente com os donos do estúdio, os três transformam o filme romântico de sempre em uma comédia musical, inserindo novas cenas e usando a voz de Kate para dublar Lamont. Bruna Guerin, que ganhou o prêmio Bibi Ferreira por “Urinal – O Musical” em 2015, vive a personagem originalmente (e muito bem) interpretada por Debbie Reynolds. Sim, a grande atriz e mãe de Carrie Fisher, que faleceu no final do ano passado, tinha 18 anos quando gravou “Cantando na Chuva”, impulsionando sua carreira a outro patamar. Bruna tem uma bela voz, excelente atuação e sabe dançar. Seu papel não tem grandes cenas cômicas, trata-se da típica mocinha – o que, na verdade, é uma pena, dado que alguns twists and turns, talvez atualizando o papel, ofereceriam à Bruna novos desafios de interpretação.

Cosmo Brown [o personagem favorito de Marília] é interpretado por Reiner Tenente, que encarna tão bem quanto Donald O’Connor esse ícone cômico. Cosmo é quem faz as tiradas, ironias e costuras de praticamente toda a história. Além disso, é responsável pelo marcante solo “Make’em Laugh”, juntando dança e estrepolias pelo palco na música que, apesar do título, talvez mais bem represente o espírito da obra (junto com “Moses Supposes”). Reiner fez o possível com o número, no entanto a tradução limitou seu potencial. “Faça Rir” não conseguiu atingir o espírito da versão original, resultando na parte mais fraca do musical. É necessário frisar que esta é uma exceção – as demais canções foram bem adaptadas e não prejudicam a experiência de público. Inclusive, “Moses” se transforma em “Truman”, com uma série de trava-línguas engraçadíssimos, uma cena feita apenas para a diversão do público e mostrar o absurdo da própria obra.

“Cantando” merece muitos elogios. Excelente elenco, inclusive o ensemble, que executa muito bem as danças – a maior parte, sapateada. Os figurinos são incríveis, combinando bem com cada personagem. E, claro, a chuva! Em “Cantando na Chuva” – a música-título -, Jarbas canta, dança e sapateia com uma bela tromba d’água caindo sobre sua cabeça. O trecho em que Lockwood desliza sobre a água da sarjeta chega a dar certo desespero: Jarbas desliza em uma poça na beirada do palco, a poucos centímetro de cair sobre a orquestra – também uniformizada com capas de chuva, no caso. Solução bastante engenhosa para a versão no palco, sucesso!

Antes de fechar uma recomendação, é importante frisarmos algumas questões. “Cantando na Chuva” é uma comédia até meio boba, se pensamos nos recursos que usa: trocadilhos e linguagem corporal meio pastelão, como quedas e até tortas na cara. Ou seja, é uma peça (e um filme) leve. Você não vai encontrar grandes questionamentos ou análises sociais nem da obra, nem das personagens – nenhuma delas é exatamente complexa. Na verdade, você já viu papéis parecidos em outros lugares. Besta, meio escapista sim, mas bastante divertida: por que não dar asas apenas ao entretenimento pelo entretenimento? Porém, vale notar, a obra não deixa de conter uma veia crítica e sarcástica – ela é bem meta. Muitas das piadas feitas por Cosmo, por exemplo, são perceptíveis apenas para os espectadores, mas não para as personagens às custas dos quais as tiradas são feitas. O filme e a peça também são bastante espertinhos nas referências a outras obras da época – “Make’em Laugh”, por exemplo, é uma paródia de “Be a Clown”, de Cole Porter (ouça as duas, é impossível não reconhecer a semelhança). Satiriza, ainda, o próprio processo de criação dos musicais, com uma canção sobre todos serem felizes na Broadway.

Levar “Cantando” a sério pode ser um dos maiores erros do espectador – e, ao mesmo tempo, entendê-la como simples comédia é tolhê-la de toda sua genialidade. Justamente por isso, é preciso reconhecer que o filme é um clássico (basta ver em quantas outras produções lhe fazem referência), o que torna sua adaptação tanto para os palcos quanto para uma o português arriscada. Apesar de um ou outro deslize, a produção fez bons acertos, e vale a ida ao (distante e isolado) teatro. Um dinheiro bem gasto, que rendeu bons risos e nos fez sair cantarolando e nas palavras do pai da Aline, para sua revolta, “batendo o pezinho”.

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