Clube do Livro: Conversas entre amigos, de Sally Rooney

Por Emannuel e Marília

[Aviso: teremos spoilers]

Emannuel: Para o último clube do livro do ano, escolhemos um que tem muito a cara de 2017: “Conversas entre amigos” não só foi lançado esse ano, como chegou por aqui em uma tradução praticamente simultânea. E talvez por isso as referências que recheiam a narrativa sejam todas tão relacionáveis. É fácil saber qual filme os personagens estão vendo, e quais apps estão usando, mesmo quando a referência não é explícita. E essas são coisas fundamentais para um livro como esse, pois seu tema central é justamente o palco de relações humanas e ideias particulares à vida contemporânea.

Marília: É um livro em que “não acontece nada”. Quer dizer, acontece mas de uma forma mais parecida com Gilmore Girls do que com Grey’s Anatomy. Dois dias após terminar a leitura, eu ainda não sei como me sinto. As personagens são todas irritantes mas relacionáveis – você entende os comportamentos e parte da premissa de que ninguém é perfeito. Ainda mais pessoas de 21 anos.

Emannuel: Meus sentimentos quanto a esse livro também estão bem divididos justamente por causa disso. A autora, Sally Rooney, nasceu no mesmo ano que eu; e, em vários momentos, eu me pegava pensando que se tivesse escrito um livro no passado próximo, ele teria muitas semelhanças com esse. Embora não seja tão jovem quanto a protagonista e narradora Frances, esse é o primeiro livro de Rooney, e isso é algo que fica bem evidente em alguns momentos do livro. Especialmente na construção de personagens e plots.

Marília: Aliás, vale lembrar que o livro ganhou um prêmio no Reino Unido e vem sendo super aclamado pela crítica. Uma coisa interessante do livro é que ele te surpreende mesmo o enredo não sendo cheio de reviravoltas novelescas. Nunca leva nós leitores para onde você esperaríamos. Você acha que vai rolar um final feliz entre o casal hétero e não é bem assim. Espera uma resolução completa e satisfatória entre as amigas e opa, nem tanto. As coisas estão rolando e você acompanha esse desenrolar. Ou seja, às vezes tá ótimo e depois fica uma merda e vice versa. Mas também por isso tem alguns personagens laterais que ficaram pouco explorados. Phillip, por exemplo, acaba meio esquecido e, particularmente, gostaria de ter entendido melhor as ações dele. Me parece q ele tinha um crush na Frances… E isso de conhecer apenas alguns aspectos da história (justamente porque a narração é em primeira pessoa) é interessante mas frustrante. Como está o pai dela? Qual o rolê com Phillip? A história foi publicada?

Emannuel: Fiquei com a mesma impressão sobre o Phillip. Em determinado momento achei até que a trama caminhava para juntar os dois, algo que não deixaria ninguém feliz, nem mesmo os personagens, mas teria sido uma saída fácil. Acho que, fosse escrito por um homem, isso provavelmente teria acontecido. A história do pai da Frances foi a mais frustrante de todas, ao meu ver. A relação deles poderia ter rendido coisas interessantes, e mais profundidade para a personagem e para o aspecto de relações humanas que a autora tentou abordar. Em determinado ponto achei que ele tinha morrido, o que teria novamente sido uma saída fácil, mas, nesse caso, ainda me parece melhor do que simplesmente estar lá como perfumaria. Mesmo a mãe tendo sido mais presente do que o pai, acabou sendo tão subaproveitada quanto. Afinal o pai pelo menos tinha o alcoolismo para se fazer marcante. Apesar desses twists em relação às minhas expectativas, também não posso achar que a narrativa seja boa. Em parte porque foca nos personagens mais desinteressantes: Frances e Nick. Esse último é um estereótipo que quase consegue se fazer interessante; a ideia de dominação pela submissão, por exemplo, poderia ter sido melhor explorada, mas todas as tentativas de aprofundar o personagem são horríveis e desperdiçam o pouco potencial que tinha. A Bobbi, então, que achei que seria uma personagem principal, é simplesmente deixada de lado, um ideal e prova do platonismo da Frances.

Marília: As relações com os pais aparecem em quase todos os personagens “principais” (menos Melissa, se não me engano) e são pouco exploradas. Você tem alguns elementos até e não acho que chega a ser perfumaria… Por outro lado, se explicasse demais também poderia ficar didático e bobo sabe? “Fulana é assim por causa da infância”, seria simples demais.
A questão da dominação pela submissão aparece inclusive no relacionamento entre ela e Bobbi. De certo modo, é o que permeia todas as relações ali em algum nível. Gostei mais do Nick do que da Bobbi, porque ele subverte um pouco as expectativas, mas Frances idealiza ambos – e a própria Bobbi aponta isso pra ela. Também achei que ia focar mais na relação entre as duas e não entendi o título do livro praticamente até o final (e achei a piada fraca).
No geral, o livro é bom, relata bem relacionamentos num mundo moderno entre pessoas tão diferentes. Ao mesmo tempo, me parece quase apressado, como se a autora não estivesse muito ciente também da estrutura que queria/pretendia seguir. Aparentemente ela escreveu isso em 3 meses, o que pode explicar essa questão – sendo ela proposital ou não.
Apesar de clichê, gostei do final porque faz tempo que não leio um livro que tenha “final feliz”. E isso é super difícil de conseguir no mundo moderno, especialmente com histórias realistas. Por um lado, se rola o “happily ever after”, é vazio, superficial e um pouco inadequado, ainda que momentaneamente satisfatório. Por outro lado, não acabar feliz/bem/fechado, cansa. É interessante, claro, porém se torna um recurso fácil demais. Como escrever um final feliz que não seja simplificado ou simplista? Achei que a autora se saiu bem.
Outro ponto é que várias resenhas apontaram o livro como uma escrita certeira e super inteligente. Não sei se é isso. Na real, é só uma história sobre jovens escrita por uma jovem e não por uma pessoa de outra geração tentando falar de millennials.

Emannuel: O fato de ser escrito por uma pessoa dessa geração realmente faz toda a diferença. As formas em que certas coisas tem de entrar na narrativa não parecem artificiais. Adorei, por exemplo, a questão das buscas por termos em conversas de WhatsApp com a Bobbi. E, parando para pensar, mesmo no que se refere aos relacionamentos entre os personagens, as questões abordadas são todas muito atuais. A idealização da vida de outras pessoas, as preocupações políticas se misturando com as relações interpessoais, a abertura de relacionamentos e seus diversos estados de liquidez… Acho que uma pessoa mais velha, olhando para essas questões, não poderia relatar uma visão tão sincera, ia ficar parecendo caricatural ou esquemático, como um romance histórico escrito simplesmente com base em pesquisa: é a verdade, mas não do jeito que ela parece de dentro.

Marília: Exatamente! Claro que temos outros escritores millennials escrevendo. No entanto, poucos conseguiram fazer um retrato – principalmente dessa parte mais nova da geração – tão autêntico e orgânico. E esse é seu maior mérito.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

Create a website or blog at WordPress.com

Up ↑

%d bloggers like this: