Leituras de suspensão

Quase todo final de ano, por volta do dia 22 ou 23 de dezembro, entro num humor de leitura muito específico. Coloco a cabeça no módulo “tempo e espaço suspensos”, por mais que as decorações de Natal e a pressão por planos de ano novo me lembrem que nem um nem outro deixaram de existir.

E, nessa época, o que não faltam são listas de leitura, recomendações dos melhores do ano, clássicos que você não pode deixar de ler, novos autores para prestar ficar de olho… Esse humor leitor não dá muita bola pra isso. Como boa acumuladora de “para ler” e amante de listas, acabo vendo e salvando o que mais me interessa nessas listas. O que não necessariamente se traduz em ler qualquer dessas coisas no final do ano. Minha ideia é, antes de tudo, ficar suspensa (ilusoriamente, eu sei, mas a bolha, migas, ela às vezes faz bem), leveza é a palavra chave.

Livros densos não funcionam muito para mim nessa época. Comecei a ler um da Elena Ferrante no final de 2016 e demorei um tempo para terminar, pela angústia do próprio livro e pela disparidade daquele livro em meio ao que esse humor meio maluco pedia. Ele costuma se estender até final de janeiro ou começo de fevereiro, seguindo um pouco a percepção de que o ano só começa depois do carnaval. Tudo isso é variável. Comum e frequente, porém diferente na duração e no tipo de livro mais buscado para esse período. Não prometo que no final de 2018 não vou puxar “A Montanha Mágica” para ler – vai que?!

Dessa vez, impulsionada por muitas influências (uma delas nas recomendações), acabei voltando aos livros de fantasia, especialmente aqueles que abordavam folclores de uma forma ou outra. Contos de fada – os da Disney inclusive – foram parte importante da minha infância. Folclores daqui e de lá passaram pelas minhas mãos e ouvidos, apresentando um outro lugar, mágico e bem mais instigante.

Os contos da Trasgo foram super importantes, em 2017, para lembrar o quanto esse tipo de história é divertida – e boa para suspender. Lá fui eu, estrada afora, procurar o que tá rolando de novo por aí nesse mundo de fantasia mais ligado aos, por falta de terminologia melhor, folclores.

E descobri que esse humor de leve suspensão combina muito bem com essas histórias. Claro, alguns livros são melhores que outros, algumas histórias são mais bem escritas que outras, alguns elementos nos chamam, nos aproximam mais que outros. E, apesar de todos os poréns e possíveis diferenças, faz sentido elas serem lidas (e serem tão queridas). Como um amigo disse esses dias, a gente ainda curte sentar em volta da fogueira para ouvir uma história – só mudamos como fazemos isso.

Essa imagem transmite muito bem o que quero dizer com suspensão e leveza. É o escuro em volta, a luz no centro, você e a história. É ela te puxando e te levando para outros caminhos. Não precisa ter final feliz. Pode ter vários momentos difíceis de lidar. Pode te deixar com medo ou aflito ou triste. Uma suspensão leve não significa ausência de problemas. A história pode ter, e geralmente tem, um lado sombrio; também tem mais do que isso. E, por ser fantástica, por estar e não estar em outro mundo, por nos fazer parar e pensar sobre nosso mundo de outra maneira, ela é tão poderosa.

Hoje em dia, oferta de livros de fantasia – inclusive releituras de contos de fada e novas histórias baseada em folclores diversos – não falta. Muita coisa contemporânea está disponível em português (conteúdo original e traduzido), envolvendo todos os tipos seres esquisitos e de mitologias variadas. Tem de tudo, para todos os gostos e tons. Por isso, nesse humor específico e aproveitando essa necessidade de suspender, fico feliz que essas histórias têm se encaixado tão bem.

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