Quando o literal se confunde com a literatura

O pós-modernismo, ao menos na literatura, é coisa do passado. Ainda que muito dos elementos que são caraterísticos desse movimento (se é que se pode chamar assim) não tenha sequer criado raízes aqui no Brasil, hoje é inevitável ver essa tendência à metaficção e a multiplicidade de camadas narrativas para compor um único texto como algo um tanto fora de moda. Uma das tendências que Leyla Perrone-Moisés, uma das principais teóricas literárias do país, observa na literatura do século XXI é a da autoficção. Embora não seja a única corrente literária de presença marcante no debate contemporâneo, esse modo literário é, possivelmente, o mais importante.

Desde os romances de Sebald, a posição do autor dentro da sua obra vem se tornando cada vez mais definida. As duas séries de livros de maior impacto na literatura mainstream global da última década se encaixam, ainda que de formas muito distintas, dentro desse espectro. A série “Minha Luta”, de Karl Ove Knausgaard, o faz de forma mais evidente. Os seis volumes (ainda em processo de tradução no Brasi) são como que uma biografia que foca em detalhes de forma a explodi-los em recursos literários. Ainda que exista essa correlação forte com a realidade, ela, no entanto, não é absoluta. Existem ali sim elementos de ficção, seja em pequenas alterações de significância variável ou no fato de que essa vida real é apresentada sob uma ótica fictícia. O Ove dos romances é uma ‘versão literária’ do Knausgaard real, a forma que é apresentado é a de um personagem, não a de um ser humano.

No outro extremo de espectro está a série “Amiga Genial” de Elena Ferrante. Ao contrário de Knausgaard, a autora italiana entra na autoficção pela porta da ficção própria, e não a da autobiografia. Ao menos, é essa a leitura que podemos fazer, já que Ferrante é um pseudônimo. Não podemos saber com certeza o quanto daquela vida corresponde à vida da autora enquanto pessoa de carne e osso. No entanto, a narradora Elena Greco é um avatar dentro da ficção para a personalidade que relacionamos ao pseudônimo. Mais importante do que haver uma relação direta é o fato de que existe uma abertura a uma leitura que mistura realidade e ficção também nessa série. O recurso aqui, em oposição ao que ocorre em “Minha Luta”, não é o de transformar a realidade em ficção, mas antes de mostrar como a ficção é real.

Essa não é uma tendência nova, embora costumasse ser mais presente na literatura de autores marginalizados pelo mainstream literário ou pela sociedade em que se inseriam. O exemplo clássico disso é Proust, que ficcionalizou sua homossexualidade em “Em Busca do Tempo Perdido” para viabilizar sua presença na cena literária da época. De forma semelhante, James Baldwin juntou experiência e ficção para falar de sua vivência enquanto negro e gay em Giovanni’s Room. E Laura Restrepo e Isabel Allende fizeram o mesmo para falar da condição da mulher em países latino-americanos marcados pelo machismo. Mas foi no século XXI que essa forma literária atingiu o centro do debate crítico sobre literatura. Além dessas duas séries extremamente populares, também temos livros isolados como Americanah, de Chimamanda Adichie, que se alimenta da experiência da autora para criar um romance que cativou milhões e solidificou a posição da autora na cultura pop, para além só da literatura.

A preponderância desse modo, no entanto, causa algumas confusões. Especialmente de pessoas que não conseguem diferenciar bem ficção e fato. Ou de como uma pode entrar na outra. Exemplo disso é a forma que o conto “Cat Person“, de Kristen Roupenian e publicado no final do ano passado na revista New Yorker, foi muitas vezes referido como sendo um artigo ou um ensaio ou mesmo uma reportagem. Por mais que retrate uma situação recorrente no mundo real, ainda que tenha um potencial de identificação enorme e até mesmo que a autora tenha baseado o conto num evento específico de sua vida, esquecer que se trata de ficção é uma forma de desrespeitar e diminuir o próprio trabalho de criação artística que ela teve.

No entanto, não chega a ser surpreendente que isso aconteça. O tipo de pensamento que motiva uma confusão como essa é exatamente o mesmo que leva as “fake news” a se arraigarem com tanto vigor nas redes sociais e serem tidas como verdade por muitas pessoas. Em geral isso se atribui à preguiça de checar fontes, ou à facilidade de aceitar um discurso que se adequa a uma determinada forma de pensar (em geral política). Esses dois elementos são, sem dúvida, muito importantes, mas a eles se junta um terceiro que tem uma importância tão grande quanto: a literalização do pensamento contemporâneo.

Um dos efeitos colaterais das formações cada vez mais técnicas e do pragmatismo que perpassa a cultura contemporânea é a dificuldade de conexão com a linguagem literária. Se é verdade que a ironia é a linguagem dos hipsters (ao ponto de ser quase esvaziada de sentido), a dificuldade de entender metáforas e outras figuras é cada vez maior. A imaginação perde espaço e, com isso, a capacidade de entender o que é real ou não, que costumava ser conectada por ela, como uma ponte. Um exemplo para fora do nível do texto pode ser a forma com que nos relacionamos com filmes e efeitos visuais. Dizem que as primeiras pessoas que viram o filme de um trem em direção à câmera saíram correndo de medo de serem atropeladas. Essa é uma história apócrifa, mas que diz muito sobre como nossas expectativas de realidade no cinema mudaram. Uma criança que assistisse hoje os filmes que eu via na minha infância provavelmente iria achar os efeitos especiais risíveis. Não ia conseguir entrar naquele mundo da mesma forma que eu conseguia. Eu mesmo não conseguiria fazer isso hoje, depois de experimentar efeitos visuais de ponta.

A diferença é que, se as criaturas de Star Wars são apresentadas como falsas, as notícias falsas são apresentadas como verdadeiras. O “documentário” de Damien Hirst que cria um contexto ficcional para sua exposição mais recente, por exemplo, apareceu na Netflix e deixou muita gente achando que um navio afundado de quase dois mil anos havia sido encontrado com estátuas do Mickey dentro. E se a autoficção é fundamental, especialmente para dar voz a pessoas que costumam ser ignoradas numa sociedade, também é importante pensar se essas pessoas estão sendo tratadas apenas como relatos curiosos, como fragmentos da realidade, ao invés de serem aceitas como verdadeiramente arte, como algo que transcende situações específicas e diz muito sobre o que é ser humano e sobre o mundo que vivemos como um todo.

Será que se Chimamanda ou Knausgaard ou Ferrante não escrevessem sobre (aquela que parece ser) a sua experiência pessoal, fariam o mesmo sucesso nos dias atuais? O fato de ser Americanah o maior sucesso de público entre os livros da escritora nigeriana, embora suas outras obras sejam consideradas melhores pela crítica, parece sugerir que não. Se “escreva sobre o que você sabe” pode não ser uma regra de ouro para criar boa arte, parece ser métrica pela qual essas obras são julgadas.

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