Elena Ferrante e algumas perguntas

Há alguns dias saiu a notícia de que Elena Ferrante começaria uma coluna semanal no The Guardian. Na verdade, é para a revista Weekend do jornal inglês, mas tanto faz. O ponto é que Ferrante, a grande escritora italiana, sucesso de público e crítica, teria sua primeira coluna num jornal.

Minha primeira reação foi euforia. Ter uma versão semanal da Ferrante seria ideal enquanto não tomo fôlego para voltar à tetralogia napolitana. Sua prosa me traga, me envolve e, por isso mesmo, acho difícil conseguir ler seus livros de forma rápida e um atrás do outro. Geralmente, preciso de pausas, respiros, descansos. A coluna me permitiria dar uma espiada nesses textos, matar um pouco a saudade dela, sem (acho eu) precisar de tanto tempo de digestão.

Porém, escrever um texto por semana significa um tanto de dedicação da escritora. Daí veio a segunda reação: apreensão – e como boa ansiosa pensei em algumas decorrências da coluna. Me perguntei se isso poderia atrasar a publicação de outras obras. Mas, até aí, ela também está trabalhando na adaptação do roteiro da série para a HBO. Ou seja, projetos para “atrapalhar” seus livros não faltam e, como a própria Ferrante disse, a oportunidade a atraiu pela possibilidade de se testar, seria um exercício atrevido, corajoso de escrita. É um outro formato que possibilita outros conteúdos.

A divulgação do Guardian dizia que Ferrante escreveria um texto pessoal, falando sobre os mais diversos temas. Sua primeira coluna, numa sacada bem meta, falou sobre primeiro amor, partindo da tentativa de listar e lembrar as primeiras vezes na vida. Não é um texto ruim, mas com certeza não era o que eu estava esperando. Não achei que Ferrante fosse falar da pauta feminista em voga ou das indicações ao Oscar 2018. Porém ainda ficou faltando alguma coisa. Um clique, uma conexão. Foi uma primeira coluna e um texto cercado de muitas expectativas – minhas, inclusive. Por isso é tão difícil falar friamente.

Mas faltou alguma conexão. É um relato pessoal, algo que pertence a ela, embora muitas pessoas possam se identificar. E é curioso pensar em um texto pessoal de uma autora que na verdade não “conhecemos”. Vale lembrar que, apesar das alegações de descoberta da identidade da autora, Elena Ferrante é um pseudônimo. Sua obra já tem um quê de auto-ficção (como o Emannuel mencionou na última newsletter) e a coluna, de certo modo, segue nessa linha, pendendo mais para o “auto”. Em tese, não é ficção, são suas experiências pessoais. Ainda assim, não sabemos o quanto dos seus textos correspondem de fato à vida da pessoa que os escreve. No limite, sendo bem pós-moderna, não sei se podemos saber isso sobre alguém, só que alguns googles ajudam em outros casos.

E aí chego a algumas perguntas que poderiam ser resumidas em: por que? Por que uma coluna? Por que no Guardian? Por que a Ferrante? Por que as pessoas leriam suas colunas? Isto é, até que ponto seus “exercícios de escrita” interessam aos leitores? Considerando o sucesso de vendas de Elena Ferrante, entendo a decisão do jornal. Imagino, aliás, que não foi a primeira proposta que ela recebeu. Porém não fica claro por que aceitar a proposta do jornal inglês, inclusive porque ali o conteúdo será publicado diretamente traduzido. Quero dizer, não teremos um texto original para comparar. Nosso primeiro contato será com a versão em inglês de Ferrante. E isso também é uma decisão curiosa.

Ferrante, pelo visto, não pretende nos deixar com menos perguntas. E considerando que sua opção é por conhecê-la por meio de sua obra, que venham as próximas colunas, então.

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