Um pouco mais sobre os limites da interpretação

De vez me quando nos deparamos com algumas interpretações de coisas que sempre pensamos conhecer que vão contra tudo que imaginávamos. Lembro de ter passado por dois momentos semelhantes que me marcaram bastante. Um deles foi numa sessão de Laranja Mecânica que se seguiu a um debate. Em determinado momento, uma das pessoas enquadrou o filme como uma crítica à internação forçada, ao sistema de hospícios e afins. A outra já nem tenho mais certeza se foi em um evento semelhante ou num ensaio literário, mas lembro que era uma interpretação de A Metamorfose, de Kafka, que via na obra um discurso sobre a invalidez ou doença.

Quando encontrei essas interpretações, minha primeira reação foi “como não tinha pensado nisso antes?”. Me pareceu tão óbvio. Nunca tinha pensado profundamente no filme, pois apesar de gostar de Anthony Burgess e tê-lo visto mais vezes do que alguns filmes que realmente gosto, nunca me pareceu assim tão interessante, em parte por ser obra de Kubrick, um cineasta quase antitético com meu gosto. Ainda assim, uma parcela considerável do filme se preocupa com a internação do protagonista, com os métodos escrabosos de “tratamento” aos quais é forçado, como a clássica imagem do mecanismo que força seus olhos a permanecerem abertos. No entanto, minha visão sempre ficou presa aos elementos mais óbvios: a violência, o conflito do sujeito e do ambiente em que vive, a sátira da cultura jovem.

Com o texto de Kafka me senti ainda mais envergonhado por não ter percebido essa possibilidade interpretativa. Por ser uma novela importante para mim. Admiro o estilo literário de Kafka, além do fato de ele usar elementos não-realistas para transmitir ideias tão profundas sobre a sociedade de onde fala (e na qual o lemos também, o que é ainda mais incrível). Mas, ainda assim, minha leitura se mantinha nas relações específicas entre os personagens, e nas considerações que o próprio fato fantástico traz à obra. Nunca tinha parado para imaginar que mais ou menos o mesmo texto poderia ter sido escrito trocando a metamorfose por uma doença crônica, por exemplo, ou para generalizar seu argumento para âmbitos além daquele próprio à história.

Nenhuma dessas duas interpretações me agrada particularmente. Acho as duas muito redutivas, que não podemos reduzir obras tão consideráveis a questões assim tão bem desenhadas. É bem possível que Kafka tenha pensado no que aconteceria com seu trabalho burocrático caso se visse impedido de executá-lo, como isso refletiria em sua família. Histórias nascidas de questionamentos semelhantes não faltam.

Até ai, poderia se tratar simplesmente do efeito Dunning-Kruger. Segundo ele, nem sequer conseguimos saber que somos incompetentes naquilo que está além da nossa capacidade. É como aquela pessoa no seu trabalho que não faz ideia de como é ruim no que faz pelo simples fato de não ter ideia de o que seria ser melhor do que já é. Mas esse é um efeito que atinge a todos nós, em algum aspecto de nossas vidas, seja grande ou pequeno. Afinal, todos temos alguns pontos cegos. E, quando aplicamos isso à nossa capacidade de interpretação, é particularmente fácil de perceber. Indo um pouco (ou muito) ao encontro do que tentei explorar na semana passada, existem muitas coisas que restringem nossa interpretação. Mas o oposto também é verdadeiro. As nossas leituras sempre são orientadas por outros conteúdos que encontramos pelo caminho.

Não é surpreendente, portanto, que a interpretação sobre Laranja Mecânica veio de um sociólogo que estudava encarceramentos compulsivos. E me arrisco a dizer que a sobre Kafka provavelmente veio de alguém que gosta de ver ligação entre o cotidiano e o fantástico. As leituras que essas pessoas fizeram foram parciais, mas ao mesmo tempo muito ricas. Essas pessoas me fizeram ver coisas que eu não conseguiria ver só com minha vivência. E não é só porque suas interpretações são interessantes que isso faz com que sejam as “verdadeiras” ou “definitivas”.

É por isso que a leitura – e os processos semelhantes em qualquer forma de arte ou comunicação ou o que for – é uma coisa tão mágica: ela nunca se esgota. E, conforme o tempo passa, vai se abrindo ainda mais para novos sentidos. Gosto de pensar em como o futuro vai interpretar de um jeito diferente algumas coisas que nós temos ideias feitas sobre o que querem dizer. E, ao mesmo tempo, pensar em como nosso jeito de enxergar uma peça de Shakespeare ou mesmo um conto de Virginia Woolf deve ser completamente diferente daquilo que as pessoas da época viam nessas obras.

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