Sendo cri-cri: The Square/Visages, Villages

Depois de 50 edições da newsletter, vocês já devem ter percebido que eu sou daquelas pessoas chatas que não liga muito para os Oscars (exceto nas categorias de roteiro, onde sempre estão os melhores filmes de verdade, e, vez por outra, filme estrangeiro), mas dá um valor maior do que devia para festivais como o de Cannes. Foi nesse espírito que fiquei muito empolgado quando descobri que o ganhador do ano passado, The Square, era um filme que se passava no mundo da arte, com seus galeristas, museus e artistas meio loucos. E que, justamente, está indicado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar de 2018.

A maioria das críticas que o filme recebeu foi no sentido de vê-lo como uma sátira desse mundo, com suas alienações, suas justificativas refinadas para o elitismo e com um deslocamento total das realidades fora desse ‘quadradinho’. Aliás, o título do filme é uma referência a esse alheamento, assim como uma obra dentro da história que teria por objetivo justamente ressaltar essas contradições, como muitas das performances artísticas contemporâneas buscam fazer. Não tem como não lembrar, no entanto, do termo “white cube”, que descreve a onipresente forma das galerias, com suas paredes brancas e uma atitude antisséptica em relação ao mundo. Seria muito interessante ver um filme que se propusesse a satirizar isso. Infelizmente, não é o que acontece em The Square.

A narrativa é uma mistura de picaresco com fragmentação pós-moderna, enlaçando o protagonista, Christian (Claes Bang), aos personagens ao seu redor. Pode ser visto como uma série de vinhetas, como quando ele e seu empregado vão atrás da pessoa que roubou o telefone e a carteira de Christian, o que mais tarde desemboca numa outra (e cruel) cena na qual uma criança o enfrenta por ter sido falsamente acusado. Ou o affair entre Christian e Anne, a jornalista interpretada por Elisabeth Moss (de The Handmaid’s Tale e Top of the Lake), que é completamente desperdiçada por subaproveitamento. Isso para falar apenas das narrativas mais elaboradas: a maioria das outras não tem desenvolvimento algum, como a briga e a relação entre as filhas do protagonista, ou a interação dele com uma moradora de rua.

Por esses exemplos já dá para ver algo se definindo: o filme não se preocupa realmente com criticar o mundo da arte, mas antes fala sobre a classe burguesa de modo mais geral, como nos filmes anteriores do diretor Ruben Östlund. Apenas uma das vinhetas se preocupa realmente com a arte contemporânea, ao apresentar um performer que simula o comportamento de um gorila durante um jantar para arrecadar fundos para o museu. Essa acabou se tornando a cena mais famosa, figurando no cartaz e em praticamente todas as críticas.

E parece ser com base apenas nisso que se proliferou a visão daquilo que o filme estaria criticando. E é uma crítica válida, ainda que simplista. Não vai muito além de uma caricatura aquilo que se imagina ser um artista contemporâneo, uma pessoa que tem ideias um tanto quanto vazias, mas se acredita um gênio e leva esse comportamento ao limite. Se esses excessos fossem retratados como uma forma de questionar a validade de algumas normas sociais, ainda estaria mais próximo da realidade, mas não é o caso. É só uma caricatura que antes reforça o alheamento, a sensação de que a arte é algo de outro mundo (o dos ricos) e não algo cotidiano. Ao mesmo tempo, é uma visão tão corrente que sequer arranha a casca das pessoas do meio, que por ventura possam ter um comportamento realmente semelhante ao demonstrado.

Outro candidato ao Oscar que mostra uma visão muito mais interessante sobre o tema é Visages, Villages – documentário que une a grande cineasta da Nouvelle Vague Agnès Varda e o fotógrafo fenômeno JR. Podia ser uma história de uma simples amizade entre artistas de gerações distintas, ou um mero projeto de vaidade, mas acaba se tornando algo muito além, uma consideração acerca das relações de trabalho, entre as pessoas e os espaços e, principalmente, sobre como a arte pode figurar nessas relações, pode estar presente no cotidiano, ao mesmo tempo de forma arraigada historicamente e criando novos significados. Ao mesmo tempo que também se utilizando da estrutura de vinhetas (as diversas viagens que a dupla faz para diferentes destinos na França e, finalmente, na Suíça), Visages, Villages consegue criar um fio que vai do seu começo ao fim, não só na fofura que estabelece entre Varda e JR, mas também na sua positividade em relação ao potencial da arte, seu poder imaginativo e transformador.

É impressionante como dois filmes com estruturas fragmentárias, sem arcos narrativos definidos e abordando a questão da arte e das pessoas que a fazem podem tomar rumos tão distintos. Em parte, isso pode ser culpa de Östlund, a princípio, não ter contato com o mundo das artes plásticas que retrata, enquanto Varda e JR são experientes e engajados. Mais curioso, no entanto, é que Östlund reproduza a estrutura de poder que, teoricamente, estaria criticando, enquanto Visages, Villages seja muito simples em suas pretensões, mas poderoso em seus resultados.

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