Um momento fantástico

Essa semana, em meio às atividades do 1º Festival Literatura Fantástika: um Brasil irrealista, vira e mexe pintava a discussão sobre a relação entre editoras e narrativas fantástikas. Nos debates foram levantados mais de um motivo para a pouca publicação dessas histórias no Brasil. Será que não interfere aí um esnobismo literário, que não vê nelas algo digno de figurar em meio a obras de “literatura de verdade”? A literatura fantástika não está sozinha nessa margem – HQs, policiais, best-sellers de todos os tipos também recebem esse tipo de tratamento.

Ao mesmo tempo, temos visto que essas narrativas, quando chegam ao mercado, encontram uma boa recepção do público. 2017 teve muitos exemplos disso. “O conto da aia”, de Margaret Atwood, ganhou nova edição da Rocco, puxado pela sucesso da série. A Aleph, conhecida por trazer clássicos da ficção científica estrangeira para o Brasil, fez a primeira versão traduzida direto do russo de “Nós”, de Ievguêni Zamiátin (em tempo: a 34 também lançou sua tradução para a obra). A publicação de narrativas fantástikas não é um fenômeno novo: além das citadas acima, a Boitempo tem “Estação Perdido” e “A cidade e a cidade”, de China Miéville, e “O tacão de ferro”, de Jack London, em seu catálogo. A mudança parece rolar na chave da intensidade.

Mais editoras vêm mexendo na área. A Morro Branco publicou várias obras recentes – dentre elas, li e recomendo “The Girl from Everywhere – O mapa do tempo”.  E a SESI-SP tem planos de publicar mais narrativas fantástikas, devendo lançar, neste ano, a antologia “Fractais tropicais: o melhor da ficção científica brasileira”. Afinal, não é só de gringos que vivem as narrativas fantástikas – aliás, pra quem se interessar mais sobre a produção brasileira e não conseguir acompanhar o Festival, vão rolar posts com a cobertura dos eventos no site da Fantástika 451.

Tudo isso para dizer que tem público para essas histórias – venham elas de fora ou de dentro das fronteiras. E seria incrível se as editoras aproveitassem o momento para relançar obras brasileiras que se perderam por aí (e lançar novas!).

Então, nesse contexto, não deveria ser surpresa ver anunciada uma tradução de Nnedi Okorafor para o público brasileiro. Vi a nota do Ancelmo Gois n’O Globo em um grupo do Facebook mas o post no Universo de Utopia tá um pouco melhor. A notícia: o grupo editorial Record vai traduzir “Binti” – vencedor do Hugo e do Nebula na categoria de melhor novela – e “Akata Witch”, primeiro volume da duologia homônima. Nnedi Okorafor é uma excelente escritora, e “Binti” é um livro tão intenso quanto curtinho. Fala de muita coisa importante: tradição, expectativas (sociais, familiares, individuais), preconceito, estrutura social, racismo…, de um jeito maravilhoso. Pesquisando para este texto, descobri que Okorafor já tem uma obra traduzida em português: “Quem teme a morte”, publicada pela Geração Editorial. Se alguém se interessar em conhecer o trabalho de Okorafor, o ebook está disponível no Kindle Unlimited.

Ainda assim, foi uma surpresa. A gente bate na tecla da diversidade na literatura porque é necessária, é relevante, faz sentido. Feminismo tem bombado na mídia mas não podemos deixar de lado a “questão racial”. O fato de a primeira tradução da Octavia Butler (halleloo, Morro Branco!) chegar apenas em 2017 é sintomático. Por que uma autora tão importante não veio antes para o Brasil? Por sorte, porque os tempos estão mudando ou as duas coisas juntas, N. K. Jemisin chegou um pouco mais rápido. O que é ótimo: ela é uma das maiores escritoras da atualidade, levou o Hugo de melhor romance por dois anos seguidos – a segunda pessoa na história do prêmio a fazer isso. A Morro Branco já traduziu “A Quinta Estação” e, na mesma leva da Okorafor, o grupo Record vai trazer ainda “The Hundred Thousand Kingdoms”, da trilogia Inheritance.

Mais uma vez, espero que, com toda essa diversidade internacional, as editoras busquem também diversidade entre criadores de fantástika nacional. Tem uma porrada de gente boa por aí e a publicação em grandes editoras faz uma diferença e tanto para a divulgação das nossas narrativas entre um público que não só gosta, quer, mas efetivamente consome fantástika.

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