Clube do Livro: Six of Crows, de Leigh Bardugo

Por Emannuel e Marília

[Aviso: teremos spoilers]

Emannuel: Na sua sétima edição, nosso clube do livro explora pela primeira vez a fantasia e os YA. A primeira escolha de 2018 nos mostra a história de um grupo de jovens desajustados que se unem para, com seus distintos talentos, realizar uma missão impossível, que pode muito bem mudar o destino do mundo em que vivem. Esse é um mundo onde a magia é quase uma ciência, embora tenha um pouco de talento natural também, mas num nível ainda humano, que faz coisas legais sem chegar ao nível de um super-poder. Ao menos até o surgimento de uma nova droga que aumenta as capacidades das pessoas que podem fazer magia (chamadas de grishas) de forma espantosa, e nosso grupo de protagonistas recebe uma proposta milionária de capturar o criador dessa droga (que já está cativo num outro país), que pode ter grandes consequências geopolíticas.

Marilia: A Leigh Bardugo criou o Grishaverse, esse universo em que a magia e ciência colidem, onde a elite mágica de Ravka – os Grishas – são uma questão. Segundo a descrição no site da autora, é para pensar nessa magia como uma versão da química molecular. Em mais de um momento no livro dá para entender isso – a grisha de água que tenta se transformar em névoa para escapar de um ataque. Ou um grisha fabricador que consegue “remover” partículas de ferro de uma barra de metal e com isso criar outra coisa. Os grishas são divididos em ordens. Não há uma explicação muito didática de como as ordens funcionam – tem um pequeno esclarecimento no começo do livro. A ideia, pelo visto, é entender mais conforme vamos lendo os livros naquele universo.

Emannuel: Se, por um lado, essa ideia da magia como algo não tão incrível me parece interessante (se bem que gostaria ainda mais se não houvesse a parte de que é preciso nascer com o dom), as outras duas ideias nessa premissa não me agradaram tanto… A primeira é a parte das drogas, porque a forma que a jurda parem tem de viciar instantaneamente e causar a morte de quem usa de forma certeira me pareceu dar um tom moralista à coisa.

Marília: Engraçado que eu curti o paralelo com a cocaína. Porque a jurda é algo que todo mundo consome – ela é um leve estimulante, como a folha de coca. Porém a partir do momento em que é manipulada quimicamente, vira um super potencializador, gerando outras reações no corpo. Discordo da sua percepção sobre o moralismo. A preocupação principal (na minha leitura) não é fazer com que as pessoas não consumam a droga porque ela faz mal. A treta é o uso dessa droga enquanto arma por vários lados e a consequência social e econômica para os países envolvidos – e aí entra na parte da geopolítica e do comentário social sobre aqueles povos.

Emannuel: A parte da geopolítica é a segunda premissa que não gostei – porque é extremamente derivativa. Essa é a segunda série da autora no mundo grisha, mas os livros anteriores, aparentemente, focavam num país específico, do qual apenas ouvimos falar nesse. Talvez esse país, Ravka, seja mais bem construído, mas os dois que vimos nesse livro não são. Na verdade, parecem ser meramente colchas de retalhos baseados na história do nosso mundo, de um jeito tão direto que até fiquei sem entender. Por exemplo, Kerch, onde os protagonistas vivem no início do romance, é uma Holanda sem tirar nem por: os canais, a língua, até mesmo a importância no comércio naval é semelhante à que os países baixos tiveram no século XVI e XVII.

Marília: Ketterdam é totalmente baseada em Amsterdam e a autora até lista no fim, na parte dos agradecimentos, as obras que ajudaram na base para montar a cidade.

Emannuel: Já o país que o grupo invade é uma versão ligeiramente modernizada do estereótipo dos vikings, e a língua parece ser de um nórdico genérico, embora não tenha captado se é exatamente igual, como acontece entre kerch e holandês. Isso para não falar em outras nações que são apenas citadas, que acabam se tornando meio que generalizações do tipo “país das pessoas de pele negra” e “país dos orientais”… De um lado, faz sentido, a autora quer criar um grupo de personagens de diversas cores e histórias, mas isso não é suficiente para fazer com que eles sejam interessantes, e acaba tendo o efeito inverso, de parecer um mundo superficial.

Marília: O efeito em mim foi o contrário. Fiquei curiosa para entender quais são esses lugares e seu papel nessas disputas. Pelo que vi, não é necessário ler a primeira série desse universo para entender o que rola aqui. Na real, embora levemente curiosa, ignorei as menções ao que rolou no passado (Six of Crowsse passa dois anos depois dos eventos da trilogia Sombra e Ossos). Porque não são o centro da história – te ajudam, no máximo, a entender de onde vieram as personagens. Então, nesse sentido, de situar o leitor, acho que cumpriram o papel.

Emannuel: E superficial é uma ótima palavra para descrever os personagens. O líder do grupo, Kaz, começa o romance como alguém extremamente idealizado, é o típico protagonista sem defeitos, que é mais inteligente e mais bonito que todos. Há uma tentativa de criar criar uma profundidade nele, ao aprendermos sobre seu passado e vermos ele se apaixonar, mas os saltos são muito bruscos, como o menino assustado se tornou o gênio do crime? Talvez a continuação dê mais detalhes, mas parece muito otimismo… Outros personagens, como Jesper e Wylan, que têm boa parte do seu passado ignorado, parecem estar lá mais por enfeite, ou simplesmente para movimentar o plot e causar algumas reviravoltas. E para formarem o único casal não-heteronormativo da trama; porque aparentemente todos tem que virar casais em algum momento, uma dinâmica que só tem um resultado melhor entre Nina e Matthias, que são o casalzão de verdade da história.

Marília: Achei isso muito Friends – no final, todo mundo se combina para virar um casal. Não precisava. Deixa as pessoas só serem companheiras de trabalho e/ou amigas e é isso. Tá tudo bem. Ajuda, inclusive, a não romantizar todas as relações – que é uma tendência no mundo YA (embora me pareça que isso vem mudando). A história de Matthias e Nina faz mais sentido – o amor proibido, a humanização do outro por meio do contato, do convívio… É uma mensagem mais bonita, sobre ignorância, ódio e tolerância, que vai além de ser mero ponto romântico na história. Da onde você tirou que o Kaz é bonito? Não sei se eu não prestei atenção na descrição mas em nenhum momento pensei nele como o cara bonitão. Matthias é o cara padrão bonitão.

Emannuel: Na cena no bordel é descrito que ele nunca escolhia nenhuma das moças, mas todas queriam ele, por exemplo. Sem falar que ele é o único retratado como tendo algum estilo; provavelmente um luxo ao qual os outros não poderiam se entregar.

Marília: Você tá fazendo um pulo entre desejo e beleza. As duas coisas não necessariamente andam juntas. O desejo pode vir da posição de poder, do estilo, da figura misteriosa… Acho que outros fatores estão aí. Porém Kaz é o mais esperto, é o cara ambicioso e que leva a melhor não importa o que precise sacrificar. Ainda assim, ele tem defeitos e problemas – que, na cabeça dele, estão ligados muito a seu lado mais “humano”. Também gostaria que a autora tivesse desenvolvido mais Jesper e Wylan – principalmente depois de mostrar o segredo de Jesper e a dificuldade de aprendizado de Wylan (e como ela não foi um problema no plano!). Aliás, é difícil ver personagens com deficiência em YA e em fantasia. Ganhou pontos. Também achei interessante que, pelo menos aqui, o ódio que o pai sente em relação a Wylan não tem a ver com sua sexualidade.
Minhas personagens favoritas foram as duas mulheres – Nina e Inej. A Nina é uma soldado, é durona e faz o que precisa ser feito, tentando conciliar suas questões individuais com as coletivas. Não chega a ser exatamente a versão feminina do Matthias, mas suas semelhanças ficam claras. Já Inej tem a história trágica, o trauma da escravidão e da exploração sexual… Tem uma cena em que ela encontra sua ex-“dona” e fica paralisada. É um YA então acho que por isso não entra em detalhes apelativos para tratar de temas espinhosos. Você não tem uma descrição absurda de como Inej era estuprada ou violentada pelos clientes no bordel (ufa). A violência está presente e é uma questão, mas não é apelativa. E tampouco é o estupro que faz Inej descobrir sua força ou sua capacidade (ufa 2). Ela sempre esteve ali, embora tenha tido dificuldades em voltar a ser tão forte depois do período traumático.

Emannuel: Acho que o livro seria muito melhor se não fosse YA, ou melhor, se não se desdobrasse para incluir alguns lugares-comuns como os que mencionei. Mas os plot twists são eficientes, particularmente o final do livro. Fiquei curioso para ver como vão resolver a situação de Nina e sua relação com a droga, e os esquemas de Kaz são feitos para deixar o leitor querendo saber como vai se desenrolar a situação (quase sempre num deus ex machina, mas ainda assim), no entanto, não acho que isso vá ser suficiente para me fazer ler a continuação, pelo menos não por enquanto.

Marilia: Sua análise é boa mas acho que é uma perspectiva meio inadequada pra história, rs. Six of Crows um heist film em forma de livro. Ou seja, o desenvolvimento e a profundidade dos personagens ficam em segundo plano – o foco é a ação (que não falta!), é o planejamento e a execução do roubo. Até que, dentro disso, Bardugo conseguiu inserir várias questões importantes: gênero, identidade, sexualidade, religião, exploração, alteridade, sacrifício pessoal, guerra… E, por meio dos diferentes pontos de vista (cada capítulo dá a visão de um personagem diferente), tenta fazer o leitor entender suas questões, anseios, medos e desejos. Por que um roubo tão impossível vale a pena para cada personagem? O que conhecemos sobre eles – e o que vamos conhecer nesse tipo de narrativa – está inerentemente ligado ao próprio roubo. Ah, e isso explica porque, embora os capítulos mostrem as visões de cada personagem, eles não são narrados em primeira pessoa.

Emannuel: Você está totalmente certa. Nunca gostei desse tipo de trama, seja em filmes, livros ou qualquer outra forma de narrativa. O meu interesse pelo livro inclusive caiu muito quando o roubo (ou melhor, sequestro) entrou em ação.

Marília: Gosto mais dos arranjos do que do roubo em si também. No entanto, é geralmente na própria execução que você entende os arranjos e mecanismos colocados em ação. E nesse tipo de narrativa, o roubo é o centro: o foco do livro é o enredo, a energia, a corrida. E isso é muito bem feito aqui. A história deixa o leitor na ponta da cadeira por meio de reviravoltas mil, como você mencionou. É claro que, justamente por ser um heist film, você sabe que eles vão conseguir executar o roubo. Não sabe como e não sabe qual o sacrifício envolvido. E justamente por isso Kaz precisa ser o mais esperto, estar à frente de tudo e todos, porque, do contrário, você não consegue executar o roubo impossível. Você fala em lugar comum do YA por ele ser “o fodão”, porém isso está bem mais ligado ao seu papel enquanto líder de heist do que ao principal de uma saga juvenil. Ele não é o Harry (que nem é fodão – afinal, temos Hermione!) ou a Katniss. Ele é o Charlie Croker ou o Danny Ocean. E mesmo quando parece que tudo vai dar errado, uma solução mirabolante aparece e, opa!, as coisas mudam de figura de novo. Se tivemos, no primeiro livro, o planejamento e a execução do roubo, no segundo veremos suas consequências – e o planejamento e a execução de um segundo roubo impossível. Agora contra tudo e contra todos – é basicamente a fórmula das continuações de filme. Diferentemente do Emannuel, eu adoro essas tramas e pretendo começar o segundo (e último) volume da série assim que possível.

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