Sendo cri-cri: One day at a time

One day at a time foi uma série de bastante sucesso que ficou no ar de 1975 a 1984. Conta a história de uma mulher, recém-divorciada, que se muda para Indianápolis com as duas filhas. Em 2017, ela ganhou um remake da Netflix, tendo como produtor executivo Norman Lear, que fez a versão original e mais um monte de sitcoms.

Talvez você tenha visto o título por aí: recentemente, Gloria Calderón Kellet, uma das roteiristas e co-criadora do remake, fez um post no Facebook pedindo para que as pessoas assistissem pelo menos quatro episódios (e recomendassem o mesmo a amigos) para evitar um possível cancelamento. Nessa, ela teria revelado como a Netflix decide pela continuidade ou não de suas produções. Não vou entrar nessa questão.

Sobre o remake: One day at a time, versão século XXI, também é uma sitcom sobre uma mulher divorciada que vive com os filhos – dessa vez, em Los Angeles, com uma filha, um filho e sua mãe. Parece só mais do mesmo – e em muitos pontos não deixa de ser – mas tem gelo e limão nessa coca-cola.

Pra começo de conversa, essa família possui origens cubanas. Em um episódio, a Lydia, a avó, conta como foi sua partida de Cuba, a tristeza de deixar sua família e seu país e os preconceitos que enfrentou como jovem imigrante nos EUA. Lydia é brilhantemente interpretada pela Rita Moreno, uma das doze pessoas no mundo donas um EGOT, o quadradinho dos prêmios: Emmy, Grammy, Oscar e Tony. A atriz porto-riquenha é sempre lembrada pelo papel de Anita em West Side Story. E, na série, ela interpreta uma avó cubana, católica, tradicional em muitos sentidos e moderninha em outros, ex-dançarina de salsa e super dramática (no sentido de grandiosa). Lydia tem presença, rouba a cena em mais de um momento, e beira o caricato sem que isso seja ridicularizado – pelo contrário, é cativante, uma excelente combinação de roteiro e atuação.

A identidade latina, particularmente cubana, da família é uma das questões centrais. Já sentimos isso na abertura, que mostra uma colagem de fotos e vídeos de latinxs [a grafia aqui é proposital: tem um episódio sobre isso], inclusive do elenco, ao som da música original repaginada – mais alegre, incorporando algo mais dançante, mais “latinizada”. A nova versão é do casal cubano-americano Stefan: Emilio fez os arranjos e Gloria canta. Por si só, pensando no atual contexto de imigração (nos EUA, mas também no Brasil e no mundo), isso é importante. A série não se furta a falar de preconceito, deportação, identidades latinas, orgulho das raízes… E aqui cabe lembrar alguns pontos importantes: é uma série – não apenas isso, é uma sitcom, americana sobre uma família de origens cubanas cuja matriarca, ainda jovem, emigrou para os Estados Unidos para escapar da situação difícil na ilha durante o governo Castro. A América aparece como o lugar de acolhimento, de liberdade, que não é exatamente um paraíso mas foi a salvação para essas pessoas. Não espere um grande discurso crítico sobre a política americana em Cuba ou algo matizado sobre a revolução cubana, porque o ponto não é esse.

A personagem principal, Penelope Alvarez, é interpretada por Justina Machado(que sorriso tem essa mulher!). Veterana do Exército, se divorciou do marido, também militar, há pouco tempo. Já temos três temas importantes: uma mulher com quase 40 anos, divorciada, veterana – e nenhum deles é tratado de forma leviana dentro dessa comédia. Penelope tem pesadelos, uma lesão no ombro e muita dificuldade em conseguir ajuda no serviço de apoio a veteranos. Tem um episódio centrado na burocracia para marcar uma consulta com um especialista, fazendo uma crítica divertidíssima ao modo como aqueles que voltam da guerra são tratados. A série também aborda seus receios e medos em voltar a namorar, desafios no mercado de trabalho e sonhos profissionais. Como parte da segunda geração, nascida nos EUA, teve outras experiências, outra relação com a identidade cubana e com a identidade americana. Também teve outra vivência como mulher latina – tem um arco sobre sexismo e machismo nos dois primeiros episódios, se não me engano) em que são abordados os diferentes tipos de problemas com que mulheres se deparam no mercado de trabalho.

Os filhos, Elena e Alex, trazem a visão de terceira geração, com outras questões de identidade e problemas próprios de crianças e adolescentes. Por exemplo, Elena não fala espanhol, Alex sim – e há piadas e discussões sobre isso. Os irmãos possuem traços diferentes e isso dá pano para falar sobre racismo e preconceito. A adolescente tem todo um lado ativista que puxa alguns dos momentos didáticos da série, ao mesmo tempo em que seu lado moderninho consciente do mundo também é ponto de partida para discussões sobre tradições com a mãe e a avó. Isso se desenvolve no primeiro episódio e, de certa forma, reaparece ao longo da primeira temporada como um todo, que gira em torno de sua quinceañera (a festa de 15 anos). Alex, por sua vez, lida com pressão dos amigos, vontade de ser popular, e é dono de uma auto-estima invejável.

O último personagem “central” é Schneider, o zelador do prédio, que também existia na série original. Ele é um cara branco, hipster, de família muito rica, pegador, e que por ter um histórico familiar ruim se apega bastante à família Alvarez. Não sei se gosto dele. Na verdade, a ambiguidade de sentimentos em relação ao Schneider me parece proposital. Ele é o contraponto à família, é um dos caras clássicos da sitcom tradicional e muitos momentos faz o papel do exemplo de privilégio branco. É um cara gente boa, com coração enorme, mas que tem uns problemas. Me incomoda ele ser um pouco caricato demais e é interessante a comparação com Lydia, em que isso é fofo e não levemente irritante.

Apresentadas as pessoas, as histórias giram em torno das situações que elas vivem. E aqui cabe dizer: essa série não vai mudar sua vida. É uma sitcom e segue o formato clássico do negócio, com risadas ao fundo (plateia ao vivo ou gravação, tanto faz), piadas entremeadas de mensagens importantes, foco nas personagens, as interações entre elas e os conflitos que emergem das situações cotidianas da vida. Mais ainda, é uma sitcom de família. Ou seja, as pessoas são fofas, têm boas intenções, se amam muito e resolvem seus problemas conversando. É algo didático e bonitinho, que te faz rir e se emocionar. Se você não curte sitcoms, nem tente – de verdade, vai te irritar. Se não há inovação na estrutura, o conteúdo abordado é outro. E aqui se encontra seu charme.

Uma comparação vai ajudar aqui, e a mais óbvia é Full House (que adoro e já recomendei na newsletter). As duas sitcoms apresentam uma família “diferente” que apesar dos problemas e das diferenças lida com os conflitos e a convivência diários da melhor maneira possível, por meio do diálogo, reforçando os valores de união e de importância da unidade familiar enquanto fundamento do convívio em sociedade e de desenvolvimento de melhores indivíduos. É um tipo de mensagem que reforça valores e estruturas existentes, impõe padrões impossíveis de se alcançar e buscar educar as pessoas sobre como agir diante das mais diversas situações. Não é exatamente realista, porque de forma alguma representa as experiências familiares existentes. Também não é totalmente imaginário, porque muitas das situações apresentadas se relacionam com questões das nossas vidas e permitem nos vermos no outro.

Mas, principalmente, é bem fofo e bonitinho. Fazem emergir todos os sentimentos quentinhos do coração e isso é bom também. E em One Day at a Time é especialmente importante porque o tipo de mensagem muda. Em Full House, racismo, preconceito, sexismo, sexualidade, gênero, temas LGBT, imigração, identidade não eram temas discutidos. A série mostra os problemas de uma família branca que mora numa casa gigantesca, com aproximadamente 18 pessoas (sou de humanas!) e um cachorro e ninguém fala de dinheiro. É uma realidade outra e é um tempo outro – 30 anos separam as respectivas primeiras temporadas. Penelope tem quase 40 anos, dois filhos e trabalha como enfermeira numa clínica particular. Danny começa a série com 27 anos, três filhas e um emprego de apresentador de TV. Não quero dizer que uma é mais importante ou mais legítima que a outra. Elas mostram condições de vida muito distintas e fico feliz que One Day at a Time venha para dar uma arejada no conteúdo.

Também é importante considerar que sitcoms são formatos extremamente populares – o que significa que seus conteúdos atingem um público muito grande. É só pensar em quantas temporadas tiveram Friends, Seinfeld, The Big Bang Theory (ainda no ar!), How I met your mother, e a própria Full House. Usar um formato consagrado para trazer conteúdos outros é bem interessante. E One Day at a Time ganha pontos porque faz isso muito bem! A primeira coisa que vem à cabeça com sitcom é repetição excessiva, beirando a preguiça e o engessamento – principalmente quando a série já está com quatro ou mais temporadas. Não é o que aparece no remake da Netflix: as piadas e atuações são boas e o roteiro é bem construído, entregando uma comédia de qualidade. Tem um episódio de Pop Culture Happy Hour em que eles discutem a série (e o filme Hidden Figures) e a Linda Holmes levanta justamente essa questão: não é uma sitcom preguiçosa.

O que não significa que é para todo mundo. Algumas pessoas podem não gostar do formato, outras podem achar as representações caricatas. Não sou cubana e em mais de um momento vi minha família e nossos costumes na série, com paralelos de latinidade que sempre surpreendem. Em resumo, série é bem feita, engraçada, relevante, e, de quebra, te faz perder alguns pelos do coração enquanto assiste.

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