As questões de gênero abordadas em “Malhação – Viva a Diferença” (ou o porquê a última temporada realmente mereceu ser vista)

Por Helena Duarte Romera

Na última segunda-feira (09), chegou ao fim a vigésima quinta temporada de Malhação, a novela da Globo destinada ao público adolescente. Sob o título “Malhação – Viva a diferença”, foi uma das temporadas da novela que mais geraram comentários do público nas redes sociais e a de maior audiência desde o ano de 2009.

Eu, com meus 26 anos de idade, não sou o público alvo de Malhação. Mesmo assim, me vi me programando, nos últimos meses, para estar na frente da tevê às 18 horas de segunda a sexta-feira e digo, sem nenhuma dúvida, que “Malhação – Viva a diferença” foi a série (se é que podemos chamá-la assim) com a qual eu mais me envolvi nos últimos tempos e que mais me emocionou.

Meu interesse pela trama começou quando eu soube que essa temporada seria escrita por Cao Hamburger e, quando fui atrás para saber melhor qual seria o enfoque, me surpreendi enormemente. Em comparação com as temporadas de Malhação que eu assistia na minha adolescência, realmente parecia que a proposta era diferente dessa vez. Para começar, a ambientação da história já era diversa: existiriam dois mundos – o da escola particular (Colégio Grupo) e o da escola pública (Colégio Cora Coralina), que coexistiam na Vila Mariana, trazendo os conflitos e diferenças entre os alunos das duas escolas, para por fim os unirem apesar e por conta de todas as diferenças.  E muito mais do que isso: a história, dessa vez, seria protagonizada por cinco meninas – mudando o foco das diversas temporadas anteriores, normalmente centradas em um casal principal e na rivalidade entre duas meninas (a mocinha e a vilã) em busca do amor do mocinho.

Um enredo baseado na amizade e na sororidade entre as protagonistas e que celebrou realmente a diferença (não só pelo seu título): entre as cinco principais, temos uma garota negra – de família pobre e que consegue uma bolsa para estudar no colégio particular (Ellen) – , uma de família asiática e que luta constantemente contra as tradições da sua família e contra o preconceito da sua mãe (Tina), uma que se torna mãe na adolescência e que acaba por ser a cola que faz o grupo se reunir (Keyla), uma de família rica, filha do dono do colégio Grupo e que acaba por se descobrir lésbica (Lica) e, a minha preferida, a Benê, filha da zeladora da escola pública, que sofria bullying dos colegas por ser “esquisita” e que em uma cena extremamente tocante explica para o seu pai – e para o público – ter Síndrome de Asperger, um transtorno do espectro autista.

No decorrer dos dez meses em que esteve em exibição, foram diversas as questões sociais abordadas pela temporada, passando do preconceito racial e homofobia até à importância da valorização da escola pública. Entretanto, foram as questões de gênero as que mais me chamaram a atenção, que foram bem variadas e, de forma geral, muito bem abordadas.
O que mais me fascinou na abordagem dessas questões foi que a vida de nenhuma das personagens era centrada em seus relacionamentos amorosos com homens; mesmo nos casos em que esses relacionamentos eram mais explorados na história, isso ocorria com o intuito de aprofundar a análise de outras questões sociais adjacentes – como o preconceito racial da mãe da Tina (Ana Hikari) que encobriu todo o relacionamento dela com o Anderson (Juan Paiva), a gravidez na adolescência de Keyla (Gabriela Medvedovski) e todo o seu descobrimento como mulher independente durante o crescimento do seu filho que se sobrepôs ao seu relacionamento com o Tato (Matheus Abreu) e o relacionamento entre o Guto (Bruno Gadiol) e a Benê (Daphne Bozaski), trazido para demonstrar a possibilidade e as dificuldades da personagem em se envolver amorosamente, pincelando também a descoberta do personagem do Guto como assexual.

De todas as questões de gênero abordadas em todo esse percurso da novela, três me chamaram mais a atenção: o abuso sexual sofrido por Katarine (Talita Younan) por seu padrasto, a relação e o descobrimento como lésbicas de Lica (Manoela Aliperti) e Samantha (Giovanna Grigio) e o abandono por parte do pai da Benê, por não conseguir “entender” a “estranheza” da filha, o que acaba por revelar uma das personagens femininas mais fortes e de destaque da trama, a Josefina (Aline Fanju), mãe da Benê e zeladora do colégio Cora Coralina.

O abuso sexual sofrido por Katarine foi um dos que melhor abordou o tema na tevê aberta brasileira. De início uma personagem solar, sempre alegre, e identificada como uma das “piriguetes” da escola pública, a garota passa, no decorrer de algumas semanas, a mudar a sua personalidade, deixando de se arrumar e se escondendo dos outros alunos. Aos poucos, vamos entendendo que Katarine sofria constantemente abusos sexuais por parte do seu padrasto e se sentia culpada por eles – inclusive sendo considerada como tal por sua própria mãe. O apoio dado ao caso pela diretora da escola, Dóris (a impecável Ana Flávia Cavalcanti) e todos os episódios que se seguiram abordando o tema muito bem demonstraram a atuação da delegacia da mulher e que a culpa nunca é da vítima. Foram dignos de aplausos – diferentemente da abordagem dada recentemente a um caso similar pela mesma emissora na novela “O outro lado do paraíso”.

O desenrolar da relação entre Lica e Samantha também foi linda, mostrando o descobrimento do amor entre duas garotas, de forma singela, amorosa e muito sensível. Apesar de, em alguns momentos, eu ter achado que a história das duas foi um pouco arrastada, depois fui percebendo que a trama se deu do jeito necessário para demonstrar todo esse processo gradual de descobrimento e entendimento de si mesmas pelas personagens – e, no fim, tivemos um dos casais mais fofos e adoráveis de todos os tempos (sou time total #Limantha). Não preciso nem falar como trazer um casal lésbico em uma novela destinada a adolescentes e que passa à tarde na tevê aberta é importantíssimo: como bem disse a Louie (do canal Louie Ponto) em um vídeo ótimo sobre o casal, trata-se de uma abordagem que pode mudar a vida e a percepção de diversas meninas, adolescentes e pré-adolescentes sobre si mesmas e sobre o amor, facilitando o seu processo pessoal de descoberta e entendimento.

E, por fim, o abandono da família de Benê pelo seu pai, a luta pelo pagamento da pensão alimentícia e, mais para o fechamento da trama, o retorno deste pai à convivência com a filha – mesmo que de forma esporádica e sem deixar de lado a importância extrema que a mãe, Josefina, teve na criação independente dos filhos – foi outro arco narrativo de extrema importância e muito bem explorado, principalmente pela força dessa mãe, que foi apresentada deixando claras as questões de gênero envolvidas e as inseguranças que surgem em uma mulher sobre a qual recai tamanha carga emocional e financeira – demonstrando que uma mulher precisa ser uma “super-mãe” por uma questão de gênero e não por algo natural da biologia feminina.

Indico fortemente a cena da Benê explicando para o seu pai o que é a Síndrome de Asperger, extremamente sensível e emocionante. Nas suas palavras: “Sou uma autista com habilidades para fazer muitas coisas. Não é uma doença. É só uma diferença humana”.
Entretanto, como nada pode ser perfeito, tivemos alguns deslizes nesta temporada, com destaque para a clássica historinha do golpe da barriga, protagonizada por Katiane (Caroline Macedo), que acaba por fortalecer a ideia de rivalidade entre as mulheres e que foi totalmente desnecessária, destoando da qualidade geral do restante do enredo e da bandeira da sororidade trazida por toda a novela.

Em resumo: “Malhação – Viva a diferença” merece ser reconhecida como uma das melhores – arrisco afirmar ser a melhor – das temporadas já exibidas, com destaque para a atuação impecável do elenco principal e das questões sociais e de gênero apresentadas de forma muito responsável. Um divisor de águas para a antes vista apenas como uma “novelinha adolescente”, demonstrando que é possível sim trazer um conteúdo interessante e de muita qualidade para este público e que fuja dos clichês já conhecidos. Mereceu muito ser vista (e, para ser sincera, ainda merece – os episódios estão disponíveis na internet e, se eu fosse você, corria para fazer uma maratona!).

Observação: apesar de não ser uma questão de gênero, destaco aqui uma das cenas mais lindas da temporada e talvez a que mais tenha me emocionado. Cansado de ser enquadrado pela polícia e por seguranças nas festas, Fio (Lucas Penteado), garoto negro e morador da Brasilândia, passa a travar contato com todas as injustiças vividas pela população negra, principalmente no sistema carcerário e no âmbito jurídico, e decide cursar a faculdade de Direito para melhor defender esses interesses. A cena dele conversando no metrô com a Ellen (Heslaine Vieira), dividindo esse sonho, e ela incentivando o amigo a estudar para o vestibular para conseguir estudar no Largo São Francisco foi das mais lindas que eu já vi.

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