Mulheres Fortes

Por Deborah Happ

Eu odeio esportes. De verdade. Eu sempre fui muito ruim em esportes. Eu era o tipo de menina que, sabe?, sentava no chão e desenhava o dia inteiro. Ou lia o dia inteiro. Ou escrevia histórias o dia inteiro. No mundo em que eu cresci, ser inteligente e ser bom em – ou mesmo só gostar de – esportes eram características mutuamente exclusivas. Talvez para justificar minha inaptidão com qualquer coisa que envolvesse meu corpo minimamente. Por isso, sempre me incomodei muito com o estereótipo de personagens femininas fortes – que são fisicamente fortes e dão muita porrada.

Mas também sempre curti espadas. E arcos e flechas. E Guerreiras Mágicas de Rayearth. E também é uma merda não conseguir abrir potes de geléia sozinha em casa quando você quer muito comer geléia. Quer dizer, tudo tem dois lados. Comecei a fazer yoga para aumentar a força nos braços e conseguir abrir todos os potes de geléia que eu quisesse. Mas abrir potes de geléia sozinha me tornaria uma mulher forte?

Eu ainda estou no frenesi Pantera Negra, recomendando o filme pra todo mundo. Já viu? Tem que ver. É incrível, tudo nele é incrível. Os personagens bem desenhadinhos, redondinhos, cheios de nuances (nem existe isso). Principalmente as mulheres. O que eu gostei de Pantera Negra é que, apesar de Wakanda ser comandada por um rei, ele ainda conta muito com todas as mulheres ao seu redor. A guarda real é toda formada por mulheres, o rei responde a um conselho de anciãos composto de homens e mulheres, a responsável por toda a tecnologia do país é uma mulher muito jovem. Cada uma delas é complexa, forte e inteligente à sua maneira. Até personagens que geralmente são representadas de forma unidimensional, como a mãe e o interesse amoroso do protagonista, aparecem aqui com personalidades e interesses próprios. Apesar de bonitas e femininas, nenhuma das mulheres é sexualizada ou usada como objeto decorativo. Não tem male gaze, sabe?

A primeira sequência onde Nakia (Lupita Nyong’o) aparece em Pantera Negra – a bordo de um caminhão, socorrendo mulheres prisioneiras – lembra bastante Mad Max: Fury Road, outro filme que fez muito barulho por causa da diversidade de representação feminina. Mulheres que se movimentam, que gritam e escrevem nas paredes que não são coisas, que guardam as últimas sementes para replantar o deserto, que raspam a cabeça e roubam caminhões enormes de um governo totalitário para socorrer outras mulheres. Assim como em Pantera Negra, as personagens do filme são mulheres bonitas, mas de forma bastante distante do olhar tradicional. Charlize Theron, a Imperatriz Furiosa, é reconhecida muito mais por ser bonita do que pelo seu trabalho como atriz. Foi bastante comentado, na época, o sacrilégio de terem pedido que ela cortasse o cabelo – como se cabelo não crescesse, como se ficar “menos tradicionalmente feminina” fosse um grande sacrifício, como se a única coisa que Charlize tivesse para oferecer fosse o cabelo.

Mas então o que torna uma mulher forte? É ir contra os padrões de beleza do patriarcado? É dirigir caminhões enormes e libertar escravas políticas? É ser uma guerreira com uma lança e excelentes dotes físicos? É trabalhar com uma tecnologia tão avançada que consegue camuflar seu país do resto do mundo? É rejeitar constantemente o título de rainha? Talvez ser uma mulher forte seja rejeitar aquilo tudo que esperam da gente. Ou talvez seja escolher assumir o cargo de filha, esposa, mãe e cuidadora da casa e fazer o melhor que puder com isso. Pode ser raspar a cabeça ou deixar o cabelo platinado crescer até o chão. Talvez ser uma mulher forte seja escolher ser exatamente o que você quiser ser, e sê-lo com toda a força de vontade que tiver.

Mais importante que conseguir abrir o pote de geléia sozinha é ter a presença de espírito para querer abrir o pote de geléia sozinha.

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