08 de março: abordagens

Tudo começou com uma amiga me fazendo uma pergunta inocente: “que você achou disso aqui?”. Já adianto que não sou jornalista (não julgo, até tenho amigas e amigos que são), não entendo de jornalismo, então perdoem o uso incorreto de termos e o desconhecimento geral da área. Esse texto é do ponto de vista de uma leitora, uma pessoa leiga – e uma mulher.

O link em questão, cujo título é bem ruim, faz parte de uma série proposta pela revista Serafina para o 8 de março: um mês comparando as rotinas de diferentes mulheres. Isso pode ter bom potencial, pois mostrar as facetas de vidas diversas permite ver perspectivas diferentes mas também nossas semelhanças, inclusive problemas e desafios comuns que nós, mulheres, enfrentamos. Aproximar, ver você no outro, é um instrumento poderoso de empatia e mudança.

Contudo, entre proposta e execução, há um abismo. No caso linkado, da rotina de Maria Oliveira, pouco foi feito com uma história tão emocionante. Ela, a mãe e a avó eram empregadas domésticas. Maria conseguiu, por sorte e por fé (segundo seu relato), quebrar o ciclo. Um caso raro. E em momento algum, o texto ou o vídeo questionam a estrutura (racista, machista, econômica) que impõe um futuro comum a três gerações de mulheres. Que tipo de impactos essa estrutura traz para a vida de diferentes mulheres pelo Brasil? O que liga as personagens retratadas na revista?

Mais ainda: adianta fazer um especial se, quando abri a página da revista no dia 8, dos 12 destaques, 9 são sobre homens? E aí vem a grande questão: qual é o ponto? O que a Serafina quer com isso? Estendo a pergunta: o que portais e jornais querem com especiais de 8 de março?

proposta do Estadão foi aproveitar a data para dar voz a vítimas de violência. A iniciativa foi divulgada nas redes sociais com a hashtag #DeUmaVozPorTodas. É importante dar voz a vítimas – principalmente porque mulheres que denunciam violências são desacreditadas, difamadas, atacadas. Só que as colunas e blogs que abrigaram esses relatos são apenas aquelas tocadas por mulheres. Fico genuinamente curiosa: por que não fazer isso em todas as colunas e blogs do jornal? Seria bom para alcançar um público mais amplo e quebrar com a ideia de que cabe somente às mulheres romper com violações e violências de gênero. O machismo e suas consequências são problemas da sociedade como um todo.

A Folha criou uma tag com links diversos sobre a temática. Tem coluna, tem reportagem… E o tema ganhou destaque no topo da home. Mas, quando você rolava a página um pouquinho pra baixo, puf, mais nada. Quando vi o site, próximo da hora do almoço, posts temáticos não apareciam sequer entre as matérias mais lidas do jornal. O F5 fez uma série de entrevistas com celebridades mulheres de diferentes profissões e idades – seria ótimo não fosse a falta diversidade ali. Em 2018, painel com apenas uma mulher negra entre 12 entrevistadas não rola. E cadê lésbicas, bissexuais, trans? Essa transversalidade é necessária porque são realidades diferentes, com problemas e desafios diferentes, e que fazem parte do amplo espectro de “ser mulher”.

Então, torno a perguntar qual é o ponto de tudo isso. É dizer que não passou em branco? É mostrar que os jornais estão prestando atenção e perceberam que 8 de março não é mais data para texto louvando as mulheres como seres especiais, cheios de luz?

Não me entenda mal. Essa mudança de paradigma é boa.No caso do El Pais, mulheres das redações do jornal aderiram a uma greve de 24 horas. A home trazia um destaque grande para o 8 de março ao redor do mundo e havia uma página temática com reportagens diversas, inclusive com casos de apagamento histórico. Muito melhor do que propaganda de eletrodomésticos e mensagens com flores.

No entanto, a abordagem dos jornais parece, em grande parte, não sair da visão de dia especial. É um dia de luta e deve ser lembrado por isso. É importante que a imprensa, em sua cobertura, mostre que está a par das demandas dos direitos das mulheres, da luta por igualdade de gênero: “também escutamos vocês”. A chave, então, passa a ser como extrapolar isso. E, aqui, a questão passa a ser se esses jornais querem fazer isso. É suficiente dizer “também escutamos vocês” com um adendo, invisível, subentendido, de “nessa ocasião”? Acredito que não.

É lindo ter uma página ou uma hashtag reunindo links com diferentes pautas e visões sobre questões de gênero. Mas um dia, uma semana, um mês não são suficientes se não trazem uma mudança de perspectiva a curto, médio e longo prazo. Por que esse conteúdo, essa visão não vai para outras reportagens? Por que não inseri-lo em outras pautas cobertas naquele dia (e em outros também)? Ao falar das eleições na Itália, não se fala da visão que os candidatos têm sobre questões de gênero ou da participação de mulheres nos protestos que vêm tomando o país. Aborda-se a intervenção no Rio sem entrar no mérito de como a presença militar impacta a vida das mulheres na cidade. Por que?

Qual é o objetivo? É conscientizar? É provocar reflexões e possíveis mudanças entre jornalistas, editores e leitores? Qual o papel dos jornais, da imprensa nisso? Essa, pra mim, é a pergunta mais importante, uma que não vi nenhum jornal se propor a discutir.

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