Pantera Negra e Relações Internacionais

[Esse texto tem alguns spoilers do filme, inclusive seu final]

Poucos filmes me fizeram reviver tão intensamente minha época cursando Relações Internacionais do que Pantera Negra. Todo o filme pode ser lido como um debate acerca de diferentes formas que um país tem de lidar com os outros, e uma leitura particular é aquela que parte da cultura para englobar esse aspecto.

Mesmo antes de sua estréia, o filme tem sido cooptado por movimentos de supremacismo branco, que veem na política de Wakanda uma oposição à imigração e à democracia, por exemplo. Obviamente, é uma leitura completamente viciada, que não leva em consideração muitos aspectos do filme, como o fato de a nação ficcional onde se desenrola a maior parte da narrativa ser, por sua constituição, um aglomerado de culturas distintas (que cliché chega a ser que essa corrente política não consiga ver diversidade cultural em pessoas negras), mas, principalmente, ignoram que o cenário isolacionista se resolve ao longo da história, Wakanda passando a se apresentar como a potência que de fato é.

É claro que isso pode acontecer de várias formas. É curioso ver como poucas resenhas mencionaram o fato de que a política do vilão é, na verdade, exatamente aquela que os Estados Unidos alimentam há mais de um século. Armar facções revolucionárias é o que os EUA fizeram com Saddam e Bin Laden anos antes de entrarem em conflito direto com os regimes autoritários que criaram. Não temos motivos para imaginar que aqueles movimentos incitados por Killmonger seriam diferentes. Isso, claro, se não considerarmos que esse tipo de intervencionismo seria apenas uma forma de estender aquilo que de facto seria um império, como também os EUA fizeram durante seu domínio sobre Cuba, ao ponto de tais abusos engendrarem a Revolução Cubana, mas que continua a exercer até hoje, como em Porto Rico. Quando um agente da CIA diz que o vilão “é um de nós”, ele pode estar pensando querer dizer que é um estadunidense, mas o significado real é que é um imperialista.

Por outro lado, a alternativa que T’challa oferece pode parecer – compreensivamente – como muito aquém do necessário. Pessoas imersas em sociedades extremamente racistas sabem que centros comunitários podem fazer uma diferença enorme, mas não são suficientes para superar as condições históricas. Por isso a alternativa do vilão parece ser aceita por uma parcela considerável do público, mesmo pelo ator que encarna o protagonista. É essa dicotomia que torna o filme realmente incrível. E por isso mesmo é fundamental manter uma perspectiva histórica.

Muito do pensamento que vemos em Killmonger vem diretamente de Frantz Fanon, um dos principais teóricos anti-colonialistas do século XX. Em seu livro “Os Condenados da Terra”, Fanon reconhece a necessidade de uma iniciativa violenta, decididamente revolucionária, tendo ele mesmo lutado pela libertação da Argélia. No entanto, Fanon rejeita decididamente todas as tendências imperialistas, como não podia deixar de ser em seu contexto, mas também as tendências pan-africanas de uma negritude unificada. Ao seu ver, a identidade não pode ser respaldada nos mesmos conceitos usados pelo colonizador branco, não existe uma conexão metafísica que una os negros no continente americano das comunidades na África, por exemplo, ou mesmo uma base histórica que aglomere todas essas culturas além da experiência da sujeição imperial.

Foi esse debate que encontramos em Fanon que também caracterizou o Partido Pantera Negra, um movimento que flertou com o pan-africanismo, mas ao mesmo tempo tinha objetivos bem estabelecidos para as comunidades em que se desenvolveu, finalmente se dedicando não a formar uma identidade a partir da ideia de uma diáspora africana, mas das sim das condições enfrentadas pelos negros nos Estados Unidos.

Uma dicotomia semelhantes também pode ser encontrada nas duas figuras centrais do movimento pelos direitos civis dos negros nos anos 60, Martin Luther King Jr. e Malcolm X. Sendo uma versão idealizada do primeiro aquele que mais se aproxima do discurso finalmente adotado pelo protagonista.

A simples representação de diversidade negra, de empoderamento, algumas das características relacionadas ao afrofuturismo, já tem o seu valor, especialmente considerando a aceitação do público, que tem lotado cinemas ao redor de todo o mundo. Mais importante do que isso, no entanto, é colocar o atual momento dentro de seu contexto histórico, relembrar que movimentos como #BlackLivesMatter fazem parte de uma luta constante. Sem a construção de um identidade a partir desse passado comum, o símbolo que o Pantera Negra cinematográfico tem potencial para (e se propõe) ser se esvaziaria.

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