Clube do Livro: Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha, de Liudmila Petruchévskaia

Por Emannuel e Marília

[Aviso: pode ler sem medo de spoilers]

Marília: “Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha”, de Liudmila Petruchévskaia, é uma reunião de contos divididos em quatro partes – Canções dos eslavos do leste, Alegorias, Réquiens e Contos de fadas. Todos os textos têm algum elemento sinistro, macabro, algo que coloca aquela narrativa fora do lugar. A sensação de estranhamento é constante. E, como todo livro de contos, gostamos mais de uns do que de outros. Para ser sincera, ainda não sei se gostei do livro – acho que não. Muitos elementos são novos pra mim e sinto que me faltam referências para entender direito tudo o que está ali. É bom avisar que apesar de um pouco sinistros esses não são contos de terror. O Emannu sabe o quanto sou medrosa e foi tranquilo até para ler à noite com as luzes apagadas.

Emannuel: Realmente, quando lemos um livro de contos é mais fácil perceber que alguns são bons e outros nem tanto, enquanto nos romances fica mais difícil notar essa irregularidade na qualidade, por ser uma coisa só. Uma coisa que percebi nesse processo foi que o fato de serem histórias fechadas acabava por me desestimular a ir direto para a próxima, era fácil fechar o livro e ir fazer outra coisa, pra voltar depois. Juntando isso ao fato de serem narrativas em geral bem curtas, acabei demorando mais do que imaginava para ler o livro.

Marília: São narrativas fechadas, curtinhas e bem diferentes umas das outras, embora tenham uma linha em comum. Tive a mesma experiência: achei que terminaria antes.

Emannuel: Porém, o fato de não ser um page-turner não quer dizer que não gostei. Muito pelo contrário, esse livro me capturou logo de cara, com a primeira história. E acho que isso veio justamente dessa sensação de estranhamento. Ao longo de vários dos contos me via fazendo conjecturas sobre o fim que aquela história ia ter, como todos os elementos iam se reunir. Talvez por ter levado nesse espírito, não consigo nem ver o livro como terror, apesar dos elementos macabros. A primeira impressão que tive foi justamente que esse ia ser um dos meus livros preferidos em muito tempo. E acabei realmente gostando bastante, mas que não tanto quanto esperava pelos primeiros contos.

Marília: “Page-turner” me remete a um livro em que o enredo importa mais que o formato. Ou, ainda, um livro em que o formato não se faz notar diante do enredo. Um livro em que talvez a estrutura, embora diferente, é construída para que não a notemos, ou em que o autor escolha pegar um formato mais tradicional e não mexer muito nele. A Liudmila me deixou confusa porque não parece ser nem uma coisa nem outra.

Emannuel: O estilo de contar da autora, quase como se estivesse fazendo uma narrativa oral, é o tipo de estratégia literária muito interessante, mas que acaba por ficar um tanto cansativo ao longo do livro. No entanto, foi o elemento de transmitir coisas profundas não através da linguagem ou forma do texto, mas pelos elementos da história que me pareceram a coisa mais interessante no livro todo. Justamente por isso acho que não se encaixa nos tipos que você vê, ela definitivamente quer colocar o formato como algo central na sua obra, ao invés de deixar isso invisível. Acho que esse recurso de contar histórias através das imagens é algo recorrente nos contos de fada, o que acaba aproximando as duas coisas, mas o que te remeteu a esse formato no livro?

Marília: Suspeito que o estilo fique cansativo porque lemos em (mais ou menos) um mês. Realmente acho que esse é um livro para ler em longo, longo prazo. Pegar um conto, ler, fechar, pensar sobre aquele universo e voltar muito tempo depois. Sobre o formato, a estrutura me chamou atenção, sim, ela não está apagada. Por exemplo, só uma das partes leva o nome “Contos de fada”, porém muitos dos textos seguem esse tipo de narrativa – o que também se relaciona com essa pegada mais oral. Ao mesmo tempo, não é bem o modelo dos irmãos Grimm; tem coisa diferente. Há uma mudança que não consigo identificar, ou melhor: que não consigo definir. E o mesmo acontece no conteúdo. Tem um monte de referência ali que não faz muito sentido pra mim – suspeito que porque não compartilho do contexto da autora. Ela constrói cenas lindas, como no conto do sobretudo preto ou da casa no litoral. E acho que vale a pena ler o livro por isso. São cenas que não costumamos encontrar nos autores que reimaginam em contos de fadas, por exemplo (é com você mesmo, Phillip Pullman). Também tem algumas críticas maravilhosas. Esse trecho me fez rir alto, porque é muito bom e inesperado na narrativa: “Ele saiu e se instalou bem no novo local de trabalho, as crianças estavam crescendo, esportivas, disciplinadas, adestradas, como acontece quando a família é estável e se assenta no culto ao pai com uma adoração reforçada e na submissão voluntária da mãe abnegada”. É que, talvez, ler tudo relativamente rápido faz perder o efeito das histórias.

Emannuel: Esse seu comentário sobre os contextos me fez coçar a cabeça. Porque simplesmente não senti falta de referências em nenhum momento. E não é que eu conheça muito de história ou literatura russa, mas porque o mundo que ela nos apresenta pareceu muito próximo do nosso, ainda que ao mesmo tempo se torne estranho por conta dos elementos mais fantásticos que ela usa. Acho, inclusive, que vale a pena ler esses textos como pequenos universos em si, como alegorias no sentido mais clássico do termo, que dizem respeito à realidade humana de modo mais geral. Os que mais me agradaram, acho, foram os que falam da forma que as pessoas têm de lidar com a morte. Adorei o conto do braço, que abre o livro, o da peste que assola a cidade, o do pai da filha morta e o da mãe que vai atrás de ajuda mágica para “corrigir” a vida do filho. Achei todos eles tão relacionáveis e tão lindos. Ao mesmo tempo, o que dá título ao livro dá um prazer sádico enorme com seu final, que mostra que a Liudmila consegue usar bem os clichês. Acho que esse é, talvez, aquele no qual seu contexto de escritora no mundo soviético fica mais claro, por conta dos apartamentos coletivos. Embora muitos dos preconceitos do contexto também fiquem evidentes ao longo de outros momentos do livro, como a visão de família que se forma com o conjunto das histórias. Fiquei particularmente dividido com o conto sobre Marilena. Em alguns sentidos achei ele um conto tão bem realizado, noutros, muito complicado de defender… Mas mesmo esses preconceitos não são específicos ao universo dela. Afinal, quantos autores em outras situações já estereotiparam as pessoas gordas ou representaram mulheres como figuras interesseiras, não é mesmo?

Marília: Sim, funcionam como alegorias e aí que tá o estranhamento diferente que tivemos (além, claro, daquele proporcionado por elementos fantásticos). O conto da Marilena entra aí, porque contos de fadas costumam trabalhar com figuras meio clássicas, visões comuns e preconceitos. Ele é bem executado porém a autora poderia trabalhar com esse preconceito de outra maneira. Ao mesmo tempo, não consegui achar a data em que ela escreveu esse texto – o que pode explicar (mas não justificar!) esse uso. Voltando às alegorias, a maneira mais fácil de resumir minha treta é que eu não entendi e/ou não me relacionei com muitas delas. Falo em contexto não só porque ela é russa; também porque me parece que ela usa essas alegorias a partir de um referencial comum do qual eu não compartilho. O que não me impede de achar toda a construção bonita e bem feita, embora, como disse, confusa. Deixa tentar me explicar: tem duas confusões – uma com a estrutura que não consigo bem definir, e esse é um confuso bom, surpreendente. E tem a confusão do conteúdo, referente às alegorias, que é o que me empurra para não gostar muito do livro. A sensação era “legal, mas e aí?” – uma questão de expectativas também. E volto na questão do tempo de leitura, porque realmente acho que um mês foi pouco tempo para digerir os textos. Esse é um livro que tem potencial para levantar expectativas e experiências de leitura muito diferentes entre as pessoas. Quero que mais pessoas leiam para trocar ideias com a gente.

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