Love, Simon e Wonder Woman

Na semana passada, assisti Love, Simon por indicação de um amigo. Foi uma experiência interessante porque ao longo dos 110 minutos de filme senti várias coisas. Na volta pra casa, arrumando minhas ideias, lembrei de Wonder Woman – outra experiência de cinema recheada de sentimentos.

A comparação teria morrido aí não fosse um recente episódio do podcast Pop Culture Happy Hour que analisa Love, Simon. Num determinado momento, a apresentadora Linda Holmes compara os dois filmes num ponto específico: as críticas. Quando filmes como esses aparecem, não é incomum querermos que eles deem conta de tudo. Reclamamos de ausências ou imperfeições em Mulher Maravilha e Com amor, Simon porque só temos um exemplar de cada e esperamos que esse um filme dê conta de tudo.

Existem vários filmes sobre mulheres, LGBTs e suas histórias. Inclusive, a temática do romance para adolescentes LGBT não é nova – nos últimos anos, alguns indies abordaram esse aspecto. No entanto, comparando com filmes recentes, não dá para dizer que Lady Bird e Call me by your name têm o mesmo alcance de Love, Simon e Wonder Woman – estes têm uma máquina de publicidade e marketing super potente e apelam para um público bem maior. No caso de Simon, isso gera até uma discussão sobre as escolhas do filme, que acabam tornando a história mais palatável para que mais pessoas assistam.

Quando Wonder Woman saiu, ouvi críticas como o roteiro é fraco, não tem profundidade, não é novidade nenhuma. Aliás, essa “ausência de novidade” também foi falada sobre Get Out. Deixo aqui a crítica maravilhosa que o Heitor Augusto, do Urso de Lata, fez sobre o filme para registrar que não é bem assim.

Fazer um filme adolescente blockbuster em que o principal personagem é um menino lidando com o processo de revelar que é gay para os amigos e a família pode parecer qualquer coisa, mas ainda é sim inovador. Bato na questão de que essas histórias não eram contadas até pouco tempo atrás e, quando eram, ficavam restritas a um público menor. No caso de protagonistas femininas, me parece que ficávamos em reconstituições históricas e comédias românticas. Super-heroína como personagem central? Mulher não gosta dessas coisas, pessoal…

E, para além disso, Love, Simon traz, sim, algumas nuances. No podcast, Glen Weldon comenta que, mesmo cercado de pessoas que parecem razoavelmente liberais, que o apoiam, e estando num ambiente relativamente acolhedor, o personagem não acha fácil ou tranquilo se assumir. Um ponto especialmente interessante para, reforço, um blockbuster. O que não significa que o filme não tenha problemas.

Como disse, senti muitas coisas na sala de cinema e uma delas foi constrangimento. Vou explicar: sabe quando você assiste Modern Family e pensa “por que essas pessoas estão fazendo isso?” – é mais ou menos assim. O foco são os adolescentes e suas relações e adolescente é bichinho dramático – americano, então, nem se fala. Em várias cenas, pensava “ai, não!”, “não, Simon, conversa com sua amiga!”, “essa decisão não faz sentido!”. Só que isso faz parte da proposta do filme e é um incômodo específico que tenho com filmes e séries adolescentes no geral (porque aparentemente sou uma jovem senhora ranzinza, rs). Isso também serve para o uso de alguns recursos de comédias românticas dos quais também não sou fã. Apesar disso, é uma história fofa e que eu acho que vale sim ser assistida.

Algo parecido rola com Wonder Woman. No cinema, histórias de origem de super-heróis dificilmente trazem grandes inovações. Fazer um filme desses é até batido – afinal, quantas vezes veremos o tio Ben morrer? Nem por isso, precisamos deixar totalmente de lado histórias de outros super-heróis. Temos três séries de homens aranhas diferentes e um filme do gênero estrelado por uma mulher e um por um homem negro. Em ambos os casos, esses dois filmes geraram reações intensas e positivas em boa parte das pessoas que assistiram.

No caso de Mulher Maravilha, foi interessante ver o quanto nossos sentimentos ao ver o filme eram semelhantes. Uma experiência de catarse que eu só tinha sentido falando da tetralogia napolitana da Elena Ferrante. Não significa que o filme seja perfeito: não precisava de um sacrifício romântico; as cenas finais com o vilão são um pouco contraditórias com a narrativa principal do filme e deixam, ainda, um buraco para se explicar a II Guerra Mundial. Nem por isso o filme deixa de ser relevante, importante, bom ou divertido.

Citando a incrível Laerte, calma, gente. Por que esperar que esses filmes sejam todos perfeitos? Por que esperar que esses filmes, sendo únicos, deem conta de uma diversidade e uma variabilidade imensa de experiências? Veja bem, não estou dizendo que é deus no céu e Patti Jenkins na terra. Críticas são necessárias e bem vindas – só não dá para esperar que um filme dê conta de tudo. E é por isso que precisamos de mais filmes e mais histórias, para mostrar as mais variadas experiências e olhares – e, ainda por cima, nos divertir, entreter, emocionar ao mesmo tempo.

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