Meet Me At McDonald’s

Há alguns dias eu sentei na poltrona da Bárbara, minha barbeira, e pedi um corte estilo Meet me at McDonald’s. Se você, assim como ela, não sabe o que isso quer dizer, é basicamente um moicano um tanto mais sutil. Os lados ficam bem baixos e o topo mantém o volume, em geral com cachos. Ninguém sabe o motivo de ter recebido esse nome, mas eu suspeito que seja algo simples, como combinar, ao sair da escola, de reencontrar os amigos depois de cortar o cabelo, ou ao fato de muitos McDonald’s ficarem perto dos colégios. Se essas duas explicações remetem a um público muito jovem, é porque esse corte tem se popularizado justamente na faixa etária que ainda frequenta a educação básica, e foi por sua presença nesse ambiente que ficou conhecido. No começo desse ano, uma escola britânica proibiu que seus estudantes cortassem seu cabelo assim. A medida, ainda que controversa, foi seguida por outras instituições no país.

Não dá para falar que esse tipo de coisa seja surpreendente, porque nossa memória cultural vê as instituições de ensino do Reino Unido como um símbolo de ambiente autoritário, pelo menos desde os romances de Dickens. E mesmo aqui no Brasil, embora eu não saiba de nenhum exemplo onde a proibição de um corte de cabelo se dê assim tão explicitamente, as escolas, especialmente particulares, todas têm proibições a vestimentas e coisas assim. Por mais que o nome seja novo e apele a um público jovem, o corte é um verdadeiro clássico. Basta olhar para ver que não está muito distante daqueles penteados dos anos 80 que são constantemente ridicularizados em filmes e séries, embora não seja tão elaborado, pereça mais natural, a comparação oitentista que faz mais sentido, ao meu ver, é com o corte dos irmãos Reid, da banda Jesus & Mary Chain, que, assim como essa nova versão do corte, vem de uma região do Reino Unido que está bem distante do mainstream londrino, regiões predominantemente habitadas pela classe trabalhadora, que nos anos 80 sofreu com o governo Thatcher e que agora enfrenta novamente uma crise que só se aprofunda com o brexit. É ao pensarmos nessa perspectiva de conflito entre o autoritarismo de uma instituição que busca formar sujeitos complacentes e as necessidades de uma classe relegada às margens, que podemos ver como algo que parece bobo como um corte de cabelo com um nome ridículo pode ser uma forma de resistência.

Algo que acontece de forma ainda mais marcada quando observamos outros contextos. O romance Americanah, por exemplo, representou um marco na carreira de Chimamanda Ngozi Adichie, que não só se tornou uma das principais autoras contemporâneas como também figura importante no movimento feminista e no pensamento das questões de raça e migração. Ainda que outros de seus livros e suas palestras nas TED talks tenham influenciado essa sua proeminência, o principal fator ainda é seu livro de 2013, que trata de um casal de amantes nigerianos separados por suas trajetórias de emigrantes, mas um romance que tem também entre suas principais preocupações a questão do cabelo. Uma boa parte do livro se passa durante uma visita da protagonista, Ifemelu, a um salão; algumas das postagens em seu blog, que entremeiam a narrativa, tratam diretamente da questão da aceitação do cabelo natural por parte da mulher negra. A própria autora disse que o romance era, entre outras coisas, sobre cabelo.

Mas se o cabelo, pelo seu caráter cotidiano aliado ao potencial de expressão, pode ser um elemento de resistência, também é verdade que pode ser, ao contrário, um símbolo de repressão. Na verdade, a maior parte do tempo, é visto como o exato oposto, um tipo de vaidade muito específico das classes dominantes. Na época da Revolução Francesa, por exemplo, mesmo a classe aristocrática não tinha condições econômicas para manter os elaborados penteados que então eram a moda. Para fazer com que durassem o maior tempo possível o uso de gorduras animais era recorrente, o que fazia com que, eventualmente, o cabelo mofasse e apodrecesse ainda no formato em que havia sido moldado. Uma das exceções a essa regra, é claro, era Maria Antonieta, cuja frequência com a qual mudava de penteado é considerada, seriamente, como um dos fatores de descontentamento popular, pelo gasto que significavam ao país. O mais famoso desse foi a Coiffure à la belle poule, que consistia em construir a maquete de um navio no penteado da monarca, penteado que foi reproduzido, em menor escala, por Elton John em seu aniversário de 50 anos, e que o obrigou a chegar à festa de caminhão, por não caber dentro de um carro.

Em comparação a isso, o Meet me at McDonald’s que pedi à Bárbara era bem mais fácil de fazer, mas ainda assim não ficou como eu havia esperado. A culpa não foi dela, mas sim do meu cabelo, que aparentemente não é mais tão esvoaçante quanto o de um pré-adolescente.

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