Opressão estrutural em mundos de fantasia

Por Yuri

Um dos desafios, a mim me parece, mais interessantes para nós que gostamos de histórias fantásticas, um desafio que voltou à tona nos últimos anos como desdobramento dos debates sobre representatividade, é o de como tratar a opressão estrutural em mundos imaginados. Tenho a impressão que a internet ajudou a dar combustível pra essa conversa, graças a sua capacidade de espalhar polêmica por aí – vide o presente ‘boletim de notícias’ – mas mesmo com sua popularização, a resposta de quem dirige ou escreve mundos de fantasia parece se conformar a um certo eixo: no polo mais desesperador, prossegue-se contando estórias sobre mundos com pressupostos patriarcais, racistas ou classistas sem qualquer preocupação crítica com o efeito dessas coisas sobre a psicologia das personagens ou a narrativa, quer porque os autores não acreditem que machismo ou racismo existam, quer porque achem que não cabe à literatura tratá-los como uma questão humana; no meio do caminho existem mundos em que há atitudes sexistas ou xenófobas ou o que seja, mas elas são antes o traço que marca a maldade de uma personagem específica que um fenômeno estrutural; no polo esperançoso, o patriarcado ou o racismo ou o classismo existentes no mundo imaginário são denunciados como danosos, quer afetando o desenvolvimento de certas personagens, quer diretamente referenciados pela voz narrativa.

Um dos meus autores favoritos é o Terry Pratchett, e ele é um dos que gosta de apontar os absurdos desse tipo de machismo arraigado em nosso mundo em suas novelas do Discworld; eu tenho mesmo a impressão que uma grande influência do meu processo pra não me tornar um adolescente completamente babaca veio das estórias em que ele tirava com a cara dos Magos e seus tabus sexistas, ou da humanidade vibrante que personagens como a Malícia Grima ou a Vovó Cera-do-Tempo apresentavam – não que ele não fosse fã também de falar sobre moças seminuas em haréns, mas acho que mesmo aí vale observar que a ênfase dessas cenas era antes no ridículo por que passavam as personagens masculinas nessas situações.

De qualquer forma, para nós que escrevemos estórias fantásticas, acho que esse eixo, com o fofo do Terry Pratchett incluso, não basta. A fantasia – quer científica, quer maravilhosa – é justamente o gênero que nos permite extrapolar as fronteiras do real sem que quem nos leia fique levantando as sobrancelhas desconfiado; se podemos investigar, em livros fantásticos, o que significa um mundo onde o grande perigo são dragões e robôs assassinos, precisamos estar abertos também a mundos em que as opressões sejam outras – com mais complexidade do que “racismo, só que ao invés de contra negros é contra elfos”, se concordarmos com a tese do Tolkien de que alegorias são um negócio furreca – ou não sejam.

Quem faz isso de um jeito bonito é a Ursula Le Guin na novela “A Mão Esquerda da Escuridão”: Genly Ai um representante da Ekumen, uma espécie de confederação interplanetária da humanidade, chega ao planeta Gethen para estudar e preparar sua possível adesão a essa confederação. Mas a evolução tomou um caminho estranho em Gethen: não há homens ou mulheres, mas humanos andróginos que, apenas por um período específico entram numa espécie de “cio” e adquirem caracteres sexuais (que podem ser masculinos em um cio e femininos em outro). A autora consegue, a partir daí, explorar as possibilidades de uma sociedade em que um dos pressupostos basilares do patriarcado, o controle da sexualidade das mulheres, sequer faz sentido. Isso, somado ao contraste entre Ai, esse estranho humano em “cio permanente”, e o resto do planeta, permite à estória enveredar-se por caminhos que a mera alegoria ou a crítica direta ao sexismo não conseguiriam alcançar.

Quem também faz isso de um jeito bonito é a Rebecca Sugar, sua equipe de produção e demais roteiristas no desenho “Steven Universo”; sem querer discutir aqui os méritos dos modelos de masculinidade sensacionais que a série apresenta para os garotos que o assistem, a natureza sócio-biológica que foi dada à raça alienígena das Gems abriu à série muitas possibilidades interessantes para contar histórias sobre opressão: a reprodução, na sociedade das Gems é assexuada, e não há qualquer divisão sexual entre elas. A série se permite apresentar relações românticas entre personagens com características ‘femininas’ sem precisar passar pelo ritual de superação de tabus sociais e enfrentamento de preconceitos que esse tipo de estória, num mundo “realista”, normalmente pediria. Por outro lado, quando a audiência já está acostumada à naturalidade desses relacionamentos, descobrimos que de fato a sociedade das Gems tem uma forte restrição às “fusões”, que são a expressão física desses relacionamentos românticos, por conta de questões de classe bastante diferentes das que motivam o nosso patriarcado.

O planeta Gethen e o planeta mãe das Gems são dois mundos que fazem esse convite às pessoas que gostamos de ler e escrever estórias fantásticas: não meramente perguntarmos se a opressão que há num mundo imaginário é ‘boa’ ou ‘má’ ou ainda ‘natural’, mas nos perguntarmos por que ela existe, qual é seu papel para esse mundo e para essa narrativa e como ela transforma essas personagens. Alegórica ou não, a fantasia nos humaniza, e nos dá algumas ferramentas, quando as procuramos, para pensar possibilidades maiores e mais bonitas também para nosso mundo cheio de opressões e desigualdade.

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