Sobre o ato de traduzir

Recentemente o site Lit Hub publicou um trecho do livro “This Little Art”, de Kate Briggs. Recém-lançada, a obra é um ensaio sobre a diversos aspectos do trabalho de tradução, e, por esse trecho, parece se preocupar com aquelas grandes questões que são enfrentadas por qualquer pessoa que decida se dedicar ao ato de traduzir. Uma dessas seria a questão de se ao traduzir um livro, por exemplo, se está “escrevendo” ou “fazendo” uma tradução. A divisão que essa dicotomia esboça é bastante conhecida: de um lado está a arte, a capacidade de considerar a prática como um ato por si mesmo criativo, e do outro apenas como uma técnica, na qual a pessoa que traduz teria poucas responsabilidades além da de reproduzir o que faz o algoritmo do Googla Translate.

Pelo título do livro (que fiquei curioso para ler) já podemos imaginar que a autora se alinha mais com a primeira posição nessa dicotomia, mas ao mesmo tempo reivindica um espaço modesto para a arte tradutória. Essa questão se desdobra ainda mais quando pensamos no nível de autoria. Se a tradução é um ato criativo, não seria a pessoa que traduz a merecedora do crédito da obra? Ou será que a boa tradução é aquela na qual essa figura intermediária se esforça para se tornar imperceptível? Sem dúvida isso exige um trabalho tão intenso que, paradoxalmente, mereceria ainda mais o reconhecimento.

Como julgamos as traduções também é uma das questões encaradas por Briggs. Ela aponta, muito contundentemente, como é absurdo o ato de dizer que uma tradução é ruim por um engano pontual, porque um trecho específico deixou escapar algo do sentido original, como se a pessoa que lê tivesse pego a incompetência no flagra. Avaliar através desses elementos isolados ignora que tal “erro” pode ser, na verdade, uma escolha consciente durante o ato de traduzir, ou mesmo como essa visão prejudica a leitura do todo, o que deveria ser o mais importante da experiência literária. Ainda que, ao contrário dela, eu não ache que as pessoas que leem não devem nada a quem produz ou traduz, é um tanto vergonhoso pensar que muitas vezes já agi assim em leituras, tentando pescar os possíveis erros, ou pensando que teria traduzido de um modo diferente.

Isso, no entanto, parece demonstrar como o ato de traduzir é tão pessoal como o de produzir um original, e por isso merece ser reconhecida como uma forma de arte (pequena ou não). Se pensamos que teríamos feito algo diferente reconhecemos como as pessoas que traduzem influencia mais do que os créditos que costumam merecer. Um caso recente que voltou as atenções para isso foi a tradução da Odisseia por Emily Wilson, a primeira feita por uma mulher para a língua inglesa (aparentemente, o Brasil ainda espera por uma), que trouxe à tona uma série de ambiguidades presentes na obra, além de novas nuances às suas personagens femininas, que simplesmente passaram despercebidas ao longo de séculos de constantes traduções. E chega a ser óbvio dizer que outras mulheres traduzindo essa mesma obra trariam elementos diferentes a ela, seja pela época em que o fazem, pelos contextos nos quais se inserem ou simplesmente por a abordarem a partir de uma subjetividade distinta.

O fato de ser a Odisseia, possivelmente, a obra fundadora de uma história da literatura que continua até hoje se junta à questão de ser também escrita na forma de versos, essa forma que é hoje considerada a mais subjetiva, mais difícil de traduzir. Muitas pessoas simplesmente preferem não ler poesia em tradução por medo de que muito se perca no processo, que o resultado seja completamente diferente, e provavelmente não tão bom quanto o original. Eu mesmo tenho bastante receio quanto a isso, e só costumo ler poesia traduzida quando a pessoa que traduz é, por si só, reconhecida como poeta, como as versões que Ana Cristina Cesar fez de Sylvia Plath. É uma paranoia que pode não fazer muito sentido, especialmente porque esses costumam ser os casos onde mais comumente existe uma metamorfose completa do original, como nas traduções de Rimbaud por Augusto de Campos, mas dá aquela sensação de que estou lendo uma obra que ainda é literária, enquanto traduções de não-poetas muitas vezes tendem a ficar com um tom acadêmico, de veneração muito grande à obra original. E, como milhões de introduções a obras traduzidas fazem questão de nos lembrar, tradução é sempre uma forma de traição, como o ditado italiano “taduttore, traditore” faz questão de simbolizar.

O que nos faz lembrar que nenhuma tradução pode ser perfeita, pois cada língua, em cada contexto, lida com realidades diferentes, formas distintas de construir semânticas. Mas se a transposição perfeita é impossível, isso permite que a pessoa que traduz tenha liberdade total sobre o original? Definitivamente não. Se uma obra está sendo oferecida com o título do original, sendo atribuída a mesma autoria, e estimulando leituras que partam desse ponto, existem responsabilidades que devem ser mantidas no compromisso com o leitor, como Denise Bottman, uma das principais tradutoras do Brasil, faz questão de salientar frequentemente em seu blog.

Tive a sorte de, nesse meu pouco tempo no mundo de Letras, ter tido aula com uma professora inspiradora, que atualmente está traduzindo a Utopia, de Thomas More, e que constantemente trazia essas discussões para suas aulas. Ter esse contato com ela fez com que mesmo em mim surgisse a vontade de traduzir, especialmente obras que eu acho incríveis e que não recebem a merecida atenção. Acredito que a decisão dela seria algo próxima da de Briggs, uma forma de comprometimento entre os dois extremos que geralmente são identificados no ato de traduzir, uma pequena arte de fato.

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