O ano sem Nobel

Quem acompanha a newsletter há algum tempo já sabe, por conta dos textos em 2016 e 2017, que quando o assunto é Nobel eu demonstro sentimentos bem parecidos com o daquelas pessoas que acompanham esportes fervorosamente, independentemente de torcer para um time. Eu não esperava, no entanto, ter que escrever sobre o prêmio assim tão cedo no ano, já que os resultados costumam sair só em outubro. Mas no último mês, aproximadamente, a maior premiação literária do mundo está em meio a uma das maiores – se não a maior – crises de sua mais que centenária história, e, por isso, não entregará um prêmio em 2018.

A primeira notícia que li sobre o caso me deixou um tanto confuso sobre o que estava acontecendo. Um jornal sueco revelou os abusos em série cometidos por Jean-Claude Arnault, fotógrafo radicado no país e um dos tantos homens que, finalmente, estão sendo trazidos à responsabilidade por se utilizarem de seu poder e influência para praticar diversas formas de violência contra as mulheres. No entanto, a ligação de Arnault com o Nobel não fica imediatamente clara, já que ele não faz parte da academia em nenhuma função. Apenas nos últimos dias foi revelado que o fotógrafo é casado com Katarina Frostenson, poeta que, ela sim, faz parte do comitê.

No entanto, esse tipo de revelação, por mais que possa ter um impacto enorme na vida de Frostenson, não necessariamente deveria chegar às suas atribuições no Nobel. O fato de as acusações terem vindo à tona em novembro também poderia reforçar essa ideia. Tudo mudou, entretanto, quando Arnault passou a ser acusado também de vazar os resultados de ao menos 7 dos vencedores nas últimas duas décadas. Me parece ter sido esse o verdadeiro motivo que fez com que alguns membros da academia sueca tenham posto em debate a expulsão da poeta do júri. De forma um tanto surpreendente, a maioria decidiu que a posição de Frostenson, por regra vitalícia, não deveria ser revogada. Três membros (todos homens, e um deles o antigo secretário-geral) resolveram abdicar de sua afiliação em forma de protesto, algo que, novamente devido ao aspecto vitalício da coisa, teoricamente não poderia ser feito (alguns membros já se afastaram anteriormente, devido ao silencio da instituição em apoio a Salman Rushdie quando esse foi condenado pelo Aiatolá Khomeini, e pela premiação de Elfriede Jelinek).

Acontece que, no momento em que esse grupo anunciou seu afastamento, os vazamentos de Arnault ainda não haviam chegado aos holofotes. A impressão que ficava era que eles buscavam se colocar contra o acobertamento de um abusador, e que a secretária-geral, Sara Danius, queria abafar o caso, o que aumentou consideravelmente a pressão sobre a primeira mulher a chefiar a academia, que foi questionada em sua liderança por figuras como a ministra da cultura e o rei da Suécia. Resultado disso foi que tanto Danius quanto Frostenson acabaram também por se afastar de seus cargos. Unindo esses cinco afastamentos, assim como outros três participantes que estão inativos por questões de saúde ou pessoais, os 18 membros da academia se veem reduzidos a dez, apenas duas sendo mulheres (seriam 7 considerando as inativas e afastadas).

Diante desse conflito interno, foi anunciado hoje que o prêmio não será concedido esse ano. O Nobel ficou sem premiar ninguém apenas em 7 ocasiões durante sua história, 6 delas durante as duas guerras mundiais, e a sétima, em 1935, é um mistério até hoje, embora se especule que tenha já relação com a situação política na Europa. O que acontecerá, no entanto, é que, como ninguém será laureado esse ano, duas pessoas serão escolhidas no próximo ano, uma delas de forma retroativa.

Por mais que essa decisão tenha seu lado triste, parece ser a saída mais acertada. Pelo menos se essa estratégia não esteja sendo usada simplesmente para comprar tempo até que as lembranças desse momento de disputa estejam mais distantes. Pelo contrário, esse é a oportunidade ideal para modernizar o prêmio, ao menos em alguns aspectos. Acho que o Nobel acaba sendo o menos ruim dos prêmios literários atuais, especialmente por constantemente se colocar como uma forma de dar destaque a obras riquíssimas, mas pouco conhecidas (Svetlana Aleksiévitch e Patrick Modiano não tinham nenhum livro em circulação no Brasil até receberem a medalha, por exemplo)  e por irem contra a corrente mais comercial de muitos prêmios literários, o que resulta de escolherem autores ao invés de livros assim como de não ligarem muito para o que é popular ou não. Ainda assim, outras questões ainda precisam ser melhor tratadas pela instituição, como seu continuado foco eurocêntrico e a desproporção entre o número de mulheres e homens a ganharem. Eu tinha esperanças de que a liderança de Danius iria lidar com essas questões. E, de certa forma, o fez. Durante seus três anos à frente da academia, uma mulher foi premiada, já em seu primeiro ano, e nos seguintes os laureados foram Bob Dylan e Kazuo Ishiguro, que parecem ter sido formas de combater a ideia de ser uma premiação elitista.

Para essas mudanças de fato acontecerem, no entanto, seria vantajoso mudar a própria estrutura da academia. Possibilitando, por exemplo, que as pessoas que se afastaram em meio às recentes disputas possam ser substituídas, e que em seu lugar entrem pessoas abertas a fazer com que o Nobel de fato entre numa nova era, mas sem perder sua relevância e a confiança a ele atrelada.

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