Trigger warning: trigger warning

Por Fernanda Perrin

“Trigger warning” é uma expressão bem comum entre grupos feministas. Para quem não conhece, é um alerta de conteúdo potencialmente estressante para quem passou por experiências de violência e abuso. Sempre que alguém compartilha alguma reportagem ou artigo que trate te estupro ou relacionamento abusivo, um aviso de “trigger” é colocado na frente para dar tempo do leitor avaliar se quer se expor àquele conteúdo ou não.

Existe todo um debate acontecendo sobre a utilidade desse tipo de aviso, mas meu ponto aqui no texto não é entrar nessa discussão. Pessoalmente, eu fico mais confortável com o aviso, porque há algum tempo tenho evitado ter contato com conteúdos muito pesados — e esse é o ponto do meu texto.

Eu lembro que lá pelos 15 anos eu ia na locadora (dêem um google, millenials) e alugava todos os filmes que tinham fama de cabeça e intensos porque acho que eu queria ser cabeça e intensa. Dessa época me marcaram especialmente os filmes do Tarantino, do Lars von Trier e do Almodóvar.

A primeira coisa que me vem à cabeça vendo essa lista é uma confusão estranhíssima entre arte e violência. E não qualquer tipo de violência, mas violência contra a mulher. A obra desses diretores é maior que isso, claro, mas é inegável que a violência contra a mulher é um elemento fundamental para esses diretores.

Tudo mudou depois de O Segredo dos Seus Olhos. Nessa época eu já tinha saído da casa dos meus pais e cursava o primeiro ano da faculdade. Depois do filme, eu fiquei perturbada. Eu fiquei horrorizada com aquela vulnerabilidade. A história deixou de ser apenas um roteiro para ser uma assombração, algo como um aviso: estamos todas sujeitas àquilo.

Depois disso eu ainda vi A Pele que Habito, os Homens que não Amavam as Mulheres, e até Thelma e Louise — que apesar de ser citado sempre como um filme empoderador, me deixou despedaçada. Eu nunca consegui avaliar o valor artístico dessas obras, digamos assim, se é que isso existe, porque o impacto delas sobre mim foi muito visceral, em um sentido ruim. Cada uma a seu modo foi nutrindo um medo voraz em mim, gerando um estresse sobre minha saúde mental e implicando em uma piora real da minha qualidade de vida.

Então eu parei. Decidi não me expor mais a esse tipo de conteúdo. “Disney, Pixar, agora eu sou toda de vocês.”

Hoje eu estou um pouco mais flexível: me permito ver algo aqui ou ali. Mas de modo geral eu evito tudo que eu sei envolver violência contra a mulher — o que infelizmente é muito comum em todo filme que se pretende profundo, cabeça ou qualquer coisa do gênero… Basicamente, homens querendo ser grandiosos e mulheres pagando o pato. Todas já vimos esse filme.

Ao mesmo tempo eu fico com uma pulga atrás da orelha me chamando de covarde toda vez que me nego a assistir algo que está sendo super bem falado. Afinal, o papel da arte é perturbar também. Esse mundo colorido de musicais eventualmente fica asfixiante, porque ele não é real. Violência contra a mulher, por outro lado, é real, e muitos dos filmes que tratam disso o fazem como forma de discutir o problema. E, mesmo que não exista uma ambição moral, longe de mim defender uma abordagem normativa da arte. Violência é fato.

Não tenho ainda muita clareza de como lidar com essa questão. Tendo a achar que cada um sabe o que lhe faz bem e o que não faz, e que está tudo bem você não se sentir confortável em se expor a certos conteúdos. Não é sinal de fraqueza, como algumas pessoas encaram, mas de cuidado consigo mesmo.

Por outro lado, evitar de modo radical qualquer coisa que possa provocar estresse me parece um pouco infantil, como se tentássemos fingir viver em um mundo diferente do que ele é. Às vezes a ficção consegue mostrar a realidade mais crua do que somos capazes de enxergar, e isso é importante também.

A questão é que muitos filmes e séries se aproveitam esse expediente para se vender. Infelizmente violência contra a mulher, especialmente sexual, atrai público. E não tem tesão maior para um ego masculino ~artístico~ ser classificado como “chocante”, “forte”, “perturbador”. É esse tipo de produção que deve ser colocada em seu devido lugar: uma tentativa preguiçosa e clichê de chamar a atenção. Muita fumaça para pouco fogo.

Curiosamente, não vejo mulheres fazendo isso. Posso estar completamente desinformada (e por favor, me corrijam!), mas não me recordo de ver diretoras mulheres usando da violência contra a mulher como subterfúgio para dar força a uma obra fraca. Por que será?

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