Perdas e redes sociais

Pessoas perdem pessoas todos os dias, de modos variados – distanciamento, rompimentos, desentendimentos, mortes. Tava ali, não está mais. Em alguns casos, dá para apontar exatamente o instante em que esse número mágico de desaparecimento aconteceu. Em outros, a coisa é mais difusa, as palavras, as imagens vão sumindo da página aos poucos, como uma cena clichê num clipe dos anos 90.

É foda ficar tentando apontar esse momento, num redemoinho bizarro. É foda achar esse ponto e relembrá-lo, analisá-lo mil vezes, pensando se dava para ser de outro jeito. Nesse tempos modernos, essa relembrança às vezes vem não da sua própria cabeça, e sim de um negocinho bizarro nas redes sociais. Abrir o Facebook e se deparar com não uma, não duas, mas três lembranças com aquela pessoa. “Olha esse momento aqui quando vocês estavam no mesmo lugar, ao mesmo tempo, dando risada, comendo, posando pra foto sorrindo”. Uma roleta russa de fotos, posts, comentários e piadas internas. E aí? Desativar as tais memórias da rede? Não entrar no Facebook de modo algum?

Ou, então, você entra no seu perfil do Instagram, pra procurar aquela comida gostosa, o nome da exposição, qual era?, a fulana tava lá, tinha aquele drink, e aquela balada, qual o nome mesmo?, e pronto. Um tapa na cara com várias fotos que você nem lembrava mais que tinham tirado, que tinham postado. É um álbum diferente, porque para cada foto escolhida para figurar ali tem mais um tanto de outras tiradas na mesma ocasião. Montes de desnecesselfies ou fotos em grupo, marcando a reunião, o reencontro. Aí que abrir a pasta de fotos na nuvem ou no celular não é seguro. Não ainda. Vai ser?

Outras vezes, a gente escolhe abrir o perfil, a pasta, o whatsapp. Ver as conversas, as fotos, matar um pouco a saudade e sentir a dor da ausência apertando mais. Fazer um post falando da separação, da distância, da ida? Não fazer? Postar uma chuva de fotos de vocês porque é o mais próximo que dá para ter agora? Existe etiqueta nessas horas? Se você está ali, em outra vibe, tentando fugir dessa enxurrada de memórias e sentimentos e tromba com tudo isso, como fica?

Pessoalmente, não tenho mais costume de postar muito no Facebook ou no Instagram. Perdi um pouco daquela coisa de postar sobre certos acontecimentos, certos sentimentos, momentos. É uma escolha que tem a ver com conforto – o meu conforto, no caso. E, dependendo da situação, não tem o que ser escrito, porque descrever algumas coisas me parece impossível. Dentre elas, a perda é especialmente complicada. Falar sobre algo que sequer consigo colocar em palavras pra mim mesma, organizar tudo na minha cabeça, por a narrativa em ordem, não é uma tarefa sobre a qual consigo me debruçar. Pelo menos, não por enquanto. Nunca diga nunca, certo?

Conheço pessoas que lidam com os sentimentos – especialmente as dores – falando abertamente nas redes sociais. Talvez seja mais saudável – colocar as coisas para fora, dar forma, definição, ou pelo menos tentar algo parecido com isso. Emitir as notas de pesar e penar porque precisamos seguir, procuramos continuar. Só que, querendo ou não, me vem a velha história da árvore que cai sozinha na floresta e faz barulho. Talvez algumas pessoas não gostem de cair sozinhas. E tudo bem, são formas igualmente válidas. Minha dúvida, nesse caso, é quando esses dois grupos se encontram, inadvertidamente, pelo algoritmo e esses mecanismos confusos, como fica?

Surge uma mistura de luto público e privado. Que, de certa forma, rola com todos os aspectos da vida em tempos de redes sociais. Tudo está na ponta dos dedos. E eu não sei o que fazer com essa liberdade que de repente me foi dada. Abrir o álbum de fotos físicas é uma atitude muito mais consciente, no sentido decisório da coisa, do que trombar com um post com imagem e declarações que não pedimos para encontrar naquele momento. Um equilíbrio nublado. Se estou ali, explorando o feed, não importa de qual rede seja, estou me colocando no trilho do trem dos posts que podem vir, sejam quais forem. Estou? Não estou?

Não sei. Não quero que as pessoas deixem de compartilhar seus sentimentos, suas dores, perdas, incertezas, porque outras pessoas lidam com isso de forma diferente. São boas lembranças, histórias gostosas, memórias que fazem bem. O impacto disso numa pessoa – como eu – que deixa tudo isso para um lado mais interior, interno, é que deixa certa confusão. Trombo com uma foto: não sei lidar com isso agora. Afloram sentimentos, pensamentos, narrativa que não se estrutura direito. Mas em nenhum momento estivemos, estamos, estaremos preparadas para a perda. Privado e público seguem se fundindo, dentro e fora das redes, porque a perda, ela não é isolada. Nos perdemos o tempo todo. Como nos encontramos depois disso, aí fica a questão (pra qual, obviamente, não tenho resposta).

(obrigada Carlinha, pela leitura, pelo encontro, pelo compartilhamento – em privado)

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