Sendo cri-cri: La Casa de Papel

Há algumas semanas eu recomendei por aqui a série espanhola La Casa de Papel. Desde então, algumas considerações me fazem pensar nela de vez em quando. Com certeza vocês também não devem ter escapado disso. Não basta a recomendação que fiz aqui, a série também inspirou uma das fantasias mais populares do carnaval de 2018, adotada até por Marília Mendonça; uma música com mais de cem anos chegou ao topo das mais tocadas no Spotify, em sua adaptação para o funk, por ser parte importante da série; e até o Temer, numa tentativa de parecer mais humano (ou menos vampírico), disse que gosta da série.

Tá certo, é verdade que todas essas validações são bastante questionáveis, ainda mais se você não gosta dos dois gêneros musicais mais populares do país ou do golpista mais impopular dele. Mas são demonstrações de que a série tem uma presença enorme no nosso país. E uma questão fundamental nessa situação é justamente o motivo pelo qual ela teve essa penetração tão grande na nossa cultura. Até certo ponto, isso é compreensível, afinal, La Casa de Papel é a série mais assistida na Netflix entre as que não são em inglês, desbancando a nacional 3%. Mas a própria Netflix parece dizer que parte desse sucesso se dá justamente por conta da forma que o público brasileiro gostou da produção espanhola. Não parece exagerado especular que isso estimulou o site de streaming a dar uma terceira temporada à série, que, apesar de ser divulgada por aqui como original da Netflix, foi criada para a TV na Espanha.

Já que a disputa com 3% colocou as duas séries numa espécie de rinha, é interessante pensar porque a nacional não teve uma aceitação tão grande aqui no país, mesmo sendo aclamada pela crítica estrangeira, enquanto a espanhola virou sucesso, mesmo passando longe da mídia internacional. Uma das grandes críticas a 3% foi o baixo valor de produção. Tudo parecia uma coisa muito barata, feita nas coxas. Pode existir aí nessa crítica uma parcela grande do preconceito que existe contra a ficção-científica nacional. Para muita gente parece que pensar no futuro, mesmo que distópico, é coisa para as pessoas “lá fora”. E, embora algumas das tentativas mais populares de explorar narrativas não-realistas no audiovisual Brasil tenham dado resultados ridículos (lembram da novela Os Mutantes?), e mesmo alguns dos exemplos mais positivos desbanquem para a comédia (lembram de Vamp?), esse é um pensamento que impede que desenvolvamos narrativas mais afirmativas, que poderiam se espelhar no afrofuturismo, por exemplo.

Mas, voltando da divagação ao ponto principal: essa impressão de produção barata simplesmente não existe em La Casa de Papel. A série tem aquela identidade visual “cinematográfica”, que se tornou a marca registrada da televisão de sucesso nos últimos anos. E isso foi feito de uma forma inteligente. A maior parte dos cenários são fixos, o que significa que podem ser melhor trabalhados individualmente, ao mesmo tempo que não devem ter custado um investimento estratosférico. E as atuações são naturais, outro fator que muitas vezes falta em produções brasileiras. Por termos muitos sotaques distintos, é comum que as atuações, especialmente na Globo, tenham sonoridades fabricadas, para não ficarem marcados pelo detestado sotaque carioca, e usem expressões que soam absolutamente antinaturais aos ouvidos do público. Mesmo que em La Casa de Papel nem todos sejam tão talentosos quanto algumas das nossas personalidades televisivas, esse fator significa um enorme passo na percepção de que o que estamos vendo é algo “de qualidade”.

O fator mais citado entre aqueles que justificariam o apreço do Brasil pela série, no entanto, seria justamente sua proximidade com as reviravoltas e os melodramas das novelas. Talvez ainda mais forte por ser em espanhol, o que lembra imediatamente as novelas do SBT. Ainda que esse argumento faça sentido em alguns aspectos, ele é muito exagerado. Talvez seja mais fácil ver esses elementos de novela por conta da língua, mas as pessoas que se usam desse argumento provavelmente não percebem que suas séries preferidas em língua inglesa, como Breaking Bad e Mad Men, se usam de recursos muito parecidos, só que revestidos com o glamour do anti-herói e das produções dos EUA. Qualificar todo um tipo narrativo como ruim, ou mesmo como “popular”, é uma redução das suas capacidades. O sucesso recente dos seriados está justamente em se aproveitarem desses elementos mais novelescos como o engajamento do público e o investimento emocional em personagens recorrentes. E se é verdade que os plot twists podem estar acima da média em La Casa de Papel, também é verdade que isso torna a história cativante, daquele tipo que é quase impossível não continuar assistindo, de tanta vontade que sentimos de saber o que vai acontecer depois. Se La Casa de Papel é uma novela, é muito bem-feita.

E digo isso mesmo não gostando de histórias do tipo heist movies, como vocês já ficaram sabendo antes. E é isso que o seriado é: um grupo de desconhecidos é reunido por um gênio do crime com o objetivo de realizar o maior roubo da história, à Casa da Moeda na Espanha. Uma premissa tão simples, mas que se revela verdadeiramente possível de render muitos frutos. Ainda mais quando relações humanas (e uma história de amor) põem em risco todo o crime. Acredito que deve ser esse o maior motivo de ojeriza pela série por uma camada que se acha intelectual: que sentimentos e até o amor tenham um papel tão grande na série. Essas pessoas preferem fantasias sobre pessoas frígidas, sociopáticas, como se esses fossem personagens interessantes. Me parece muito mais interessante ver uma figura que como o chefe da gangue, apelidado de Professor, tem uma imagem de homem ideal, para depois revelar como na verdade é alguém passional como qualquer outro humano, algo que o torna muito mais profundo do que qualquer Walter White que vemos por aí.

Por último, cabe também dizer que a série sabe se utilizar como poucas de uma imagética que tem poder. Através de símbolos como os macacões e máscaras dos assaltantes ou a canção antifascista Bella Ciao, o seriado consegue criar formas de comunicar sentimentos de forma eficiente e, ao mesmo tempo, ganhar um espaço enorme no imaginário popular. Sem elementos como esses, fica difícil para 3% entrar nesse páreo.

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