Clube do Livro: O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer

[Aviso: temos alguns spoilers mas nada muito grande]

Emannuel: Último romance de Victor Heringer, que faleceu em março deste ano, “O amor dos homens avulsos” foi finalista do Prêmio Oceanos em 2017. O livro conta a história de Camilo, grande parte dele em primeira pessoa, mas em duas linhas temporais distintas. Uma delas durante a infância do narrador, nos anos 70, mostra como ele conheceu seu primeiro amor, Cosmim, e como o perdeu algum tempo depois, assassinado. A segunda, passada em 2014, nos permite ver o Camilo do presente, como essa perda marcou toda sua vida, e foi um fator determinante na pessoa que se tornou. Mais perto do fim do romance, essa segunda narrativa também passa a tratar a aproximação e espécie de adoção pelo protagonista do neto do homem que matou Cosmim, e também pulando para uma narrativa em terceira pessoa, por motivos que eu não entendi muito bem…

Marília: Bom resumo. Eu só adicionaria que não sabemos exatamente se esse homem matou Cosmim. Não há uma prova concreta e é um narrador em primeira pessoa né? Além disso, importante dizer que são duas linhas temporais distintas mas não separadas. Elas se misturam em mais de um ponto, fazendo uma transição entre histórias de um modo interessante, bem fluxo de pensamento. Me pareceu um modo “fidedigno” de lembrar. Digo, quando pensamos no passado e na memória, e vamos puxando lembranças, não é incomum conectar com acontecimentos presentes ou de um passado mais recente. E é uma escrita bonita, bem feita, o ritmo é excelente. Heringer faz muito bem o equilíbrio entre a vontade de ler mais, de não largar a obra, porque queremos saber onde o personagem vai chegar, entender suas relações, e, ao mesmo tempo, querer apreciar muito bem o caminho e, pra isso, não sair correndo pra terminar o livro. É uma leitura que dá gosto de fazer – mais de uma vez parei para reler um parágrafo e admirar as construções do autor.

Emannuel: De fato, a escrita é muito bonita. Acho que, para mim, essa foi a maior qualidade de livro. Acho que o Victor conseguiu passar muito bem os sentimentos do personagem, essa coisa que é tão difícil de fazer. Embora algumas coisas na escrita tenham me incomodado muito também. Especialmente a forma de falar de personagens como o Cosmim e Renato. Achei uma fetichização do homem negro de forma quase descarada. Eu esperava a qualquer momento a analogia com “animal reprodutor” que ia atrelar de vez a voz do narrador a um discurso digno de Bolsonaro. E o fato do narrador ser o tipo de pessoa que mede a cor das pessoas por “quanto leite tem nesse café” e metáforas parecidas não ser problematizado me deixou com uma impressão ruim de forma geral. Isso para não falar nas personagens femininas, cada uma um estereótipo. Foi nesse sentido que esse livro me deu muito a impressão de ser exatamente o tipo escrito por aqueles escritores “jovens, homens, brancos, de classe média” que tem tantos problemas em enxergar além de si mesmos. Só faltou mesmo ser sobre alguém tentando escrever um livro para cair em mais clichês ainda.

Marília: Realmente, tem uma fetichização dos corpos negros que é incômoda. Ao mesmo tempo não sei o quanto ela não foi problematizada – aqui falo com absoluto desconhecimento de causa. As falas do narrador cabem bem na construção do personagem, um homem de classe alta (pelo menos originalmente) e que vê na rua, no outro, crianças que não são iguais a ele. Em mais de um momento são destacadas as diferenças de classe e raciais entre os meninos. Camilo mora numa casa grande, com piscina (que o amiguinho sempre quis visitar mas nunca pediu, sendo que Camilo poderia tê-lo convidado?), teve uma babá negra, muito amada, quase da família, mas que desaparece sem mais nem menos e praticamente não existe para fora da atuação na casa. É uma narrativa que aponta problemas. Porém não vejo Camilo como alguém com quem simpatizamos e por isso digo que não sei se não foi problematizada. Porque ele não é um personagem para se gostar e suas atitudes/pensamentos são bastante reprováveis. Suas relações são muito ruins. Tem problemas no modo como lida com a história do pai (e o envolvimento com a ditadura), como lida com a irmã, como lida com a mãe, como lida com Cosme e com Renato. E há uma oposição constante entre essa existência branca e (mais?) rica e o subúrbio, predominantemente negro e pobre, onde há, inclusive, uma antiga senzala. Não sei se essas marcas e apontamentos são suficientes para dizer que foi problematizado – talvez não. Vale, ainda, mencionar que na fetichização de Cosmim há quase uma repetição do comportamento do pai de Camilo com outra pessoa negra, a Paulina. Fiquei com nó no estômago lendo as passagens em que os dois interagem. Causou incômodo – não sei se a intenção era essa. Ah, e não entendi qual era a pegada das relações com as personagens mulheres. Por que a irmã, a mãe, Maria Aína, Paulina estão ali? Por que a relação com a ditadura é mencionada? É pra ajudar a compor o retrato desse homem branco classe média-alta em meio ao subúrbio? Isso basta? Não sei. Um trecho que achei interessante é o dos nomes, a la Ciranda, em que Heringer até faz algo como autoficção, quando o narrador menciona o autor. É um capítulo que pareceria desnecessário, não fosse a beleza da construção e a própria intensidade das frases, que reforçam mais e mais a relação entre os dois.

Emannuel: Devo admitir que nem lembrava, até você citar, que o autor aparecia ali. Esse foi uma trecho que achei interessante também. Pelo que pude perceber, Victor era bastante engajado com a comunidade literária virtual, e pediu para as pessoas preencherem um formulário com os nomes dos seus primeiros amores, que resultou nessa lista. Durante a leitura, achei bastante cansativo, porque são muitos nomes, e nada ali dá o contexto para que se torne uma leitura interessante. E também tinha me parecido uma lista bastante hétero, ainda mais quando colocada em perspectiva dentro desse romance. Só no fim, nos agradecimentos, com a explicação do processo e da origem dos nomes, a passagem se tornou muito mais significativa, retroativamente, do que foi no momento. E, vendo por essa perspectiva, fica mais fácil de entender porque o fim do romance parece ser assinado por uma espécie de brasão que o autor fez para si mesmo com as letras do seu nome. Outro elemento que gostei bastante foi a lista das pessoas da sala de escola do personagem, e a forma como foram usados para criar os arquétipos de outros personagens no texto (uma coisa ruim da edição ebook era não poder voltar facilmente à lista, aliás).

Marília: Não achei a lista cansativa – mas achei bastante hétero também. No final, entendemos que ele reproduziu o formulário e isso meio que “explica” a composição. Sobre as imagens, achei bastante problemáticas no ebook. Até pedi para ver algumas páginas de uma amiga que estava lendo a versão física porque eu não conseguia ver a sala de aula. E não era possível ampliar essa imagem (e algumas outras). Fez falta poder voltar à catalogação de pessoas com rapidez. Tanto que desisti – quanto ele mencionava as siglas, eu só seguia o texto.

Emannuel: Concordo, as imagens também não se deram bem com a edição digital. No entanto, acho que mesmo caso fossem melhores, ou na versão impressa, elas não contribuíram muito para a leitura. Parece que estão lá só porque o autor quis, não parecem ter nenhuma função mais importante na narrativa. Assim como a mania de usar um sinal gráfico formado de alguns traços em forma de círculo para falar do sol ou relógios ou a mancha de sangue sob o corpo de Cosmim. Apesar da conexão entre esses elementos circulares seja interessante, me pareceu uma forma de guiar a mão de quem lê, como se a pessoa não pudesse fazer essas ligações por conta própria, além de ficar parecendo uma escolha feita como um ato de vaidade, uma coisa que o autor escolheu colocar lá simplesmente porque podia. A soma de todos esses elementos fizeram com que não curtisse muito o livro, apesar de ter achado um começo promissor, fiquei com a impressão de ter faltado conteúdo.

Marília: Já eu gostei do sinal gráfico. Achei que reforça a circularidade que ele quer dar e me encaixo nas pessoas leitoras que não fariam todas as conexões. Algumas são mais óbvias que outras. E é bom reforçar que, apesar de todas as questões que levantamos, gostei do livro. A prosa é bonita, a história puxa, e há uma certa angústia que perpassa o texto e é bem transmitida para o leitor (não num nível Elena Ferrante). No finalzinho, fiquei o tempo todo ansiosa se o telefone ia tocar ou não.

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