Memória, diário, leitura

Tenho a impressão de que as listas se multiplicaram na (ou com) a internet. Quantas vezes você já viu listas de grandes clássicos para ler, ouvir, assistir, web afora? É uma mistura de mania de catalogação e obrigação de conteúdo (sejam lançamentos ou “clássicos”), que repercute em mais de um meio. De modo algum estou isenta disso. Amo fazer listas, amo ler listas, amo salvar listas que nunca vou de fato seguir mas não quero perder (oi Marie Kondo), amo ver listas de amigos e descobrir coisas novas. Também sou ligeiramente obcecada com organização.

Entrei no Goodreads em 2014. Não lembro quem me apresentou – Aline? Mannu? – mas a ideia me conquistou: uma rede social baseada em livros e interesses livrísticos?! Onde eu me inscrevo? E embora use diariamente o Goodreads, como toda rede social, ele tem pontos fortes e pontos fracos (que não vou analisar com profundidade aqui). A proposta original é de “catalogação social”, o que quer que isso signifique, de livros. Dá para ver o que as miga estão lendo, seguir pessoas cujas resenhas ache interessante, descobrir livros diferentes dos mesmos autores, ver obras semelhantes à que acabou de ler, seguir listas de livros, fazer grupos de discussão…

É bem legal, ainda que o aspecto da interação social fique limitada, especialmente pela questão do idioma. O Goodreads está disponível apenas em inglês. Isso não significa que só dá para encontrar livros em inglês, porém a plataforma está todinha neste idioma. Existe uma promessa de expandir para outros idiomas (todos europeus, o que não ajuda muito) que não se concretizou ainda. Ou seja, para mexer, você precisa saber pelo menos um pouco de inglês. Vale dizer que o Skoob tem uma proposta parecida e é 100% brasileiro.

Um dos recursos que mais gosto é o desafio anual de leitura. Cada pessoa define quantos livros se propõe a ler naquele ano. Venho tentando manter mais ou menos no mesmo patamar, aumentando um pouquinho de cada vez. Aliás, falando em listas, muitas propõe concentrar-se não em números de leitura mas no conteúdo do que é lido. Tem várias, como a “Read Harder”, que propõem nos aventurarmos para além da zona de conforto.

Na verdade, para além de ler mais, o principal atrativo – pra mim – é uma questão de memória (em mais de um sentido da palavra). A minha, para nomes de obras e escritoras/escritores, falha toda vez que quero lembrar de um livro. Fico presa no looping de perguntas e associações para encontrar os nomes sumidos, até que eles aparecem no meio da madrugada umas semanas depois. Facilita ter isso armazenado em algum lugar de fácil acesso – coisa que meu cérebro não é.

O segundo ponto é uma memória de períodos – que também está relacionada ao acesso à lembrança. Associar a leitura de um livro a um determinado período da vida me ajuda a puxar o nome. No entanto, me interessa mais ter uma visão dos livros lidos numa certa época. Acho que possibilita me entender um pouco melhor e gera outra curiosidade: a dos conteúdos trabalhados em certos momentos. Por exemplo, você ouve Adele quando encontra ex’s na rua? A que filme recorre quando precisa de um conforto? Assiste série para passar roupa? Ou, quando conhece novas pessoas, que referências são trocadas? Muitos dos livros adicionados à listinha infinita de “to-read” vieram por recomendação de pessoas queridas. Acho gostoso ver pelo menos um pouquinho disso nas listas – ao invés de sequer lembrar quem te apresentou essa rede social, rs.

O desafio, então, acaba por criar um diário de leituras – o que entrou, quando, e até por quem. Só que, como toda lista, também pode gerar alguma pira, e aí volto na questão da obrigação de conteúdo. Há uns meses atrás, li um texto (em inglês) sobre a pressão dos números e a obsessão com o rastreador de leituras. Explico: para ver a quantas anda seu desafio, aparecem, na lateral direita do Goodreads, mensagens tipo “you are on track”, “you are two books ahead” e “you are one book late”, geradas a partir de cálculos de quantos livros você precisaria ler por mês para cumprir sua meta. Confesso que nunca prestei muita atenção, porque, de certa forma, conseguia manter um ritmo. Nada muito planejado – tinha meses que eu lia mais, outros eu lia menos, e as coisas acabavam se balanceando.

Dito isso, nunca tinha aparecido uma mensagem de atraso ali. Até agora. E confesso que achei que fosse me desesperar mais. Não vou dizer que estou 200% tranquila. Tem uma vozinha que pede a retomada do ritmo: leia um livro curtinho para compensar e volte à trilha. Também pergunta o que vai acontecer se no final do ano eu não alcançar o desafio.

Outro lado dá uma espreguiçada no sofá, se estica, e argumenta que a meta não existe, não tem porque colocar meta, quando atingirmos a meta vamos dobrar a meta. Outro, mais zen, fala que a meta é minha, eu a defini, logo, não tem problema algum se não alcançá-la. Só adaptar para o ano seguinte. Confesso que tô tentando focar nesse aí. E tem um mais de exatas (quem diria!) alegando que tô lendo livros mais longos, o que leva mais tempo, então quando terminá-los a conta vai fechar. Um quê de lema de Dory.

Da mistura disso tudo, vou seguindo minha catalogação (menos social e mais individual). Não sei se precisa fazer sentido ou se tem um número a ser necessariamente conquistado. Por enquanto, basta ser divertido e saber que terei onde procurar os nomes depois. Não sei de onde esse desapego tem vindo, mas fico feliz que esteja aqui.

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