Seleção natural na televisão

No último mês os canais de tv tradicionais dos EUA anunciaram a maior parte dos cancelamentos de seriados da temporada. Outros ainda estão por vir, sem dúvida, mas o fato de muitas serem canceladas concomitantemente é sempre um choque para quem, por falta de sorte, vê mais de uma das suas queridas ser relegada ao vazio ao mesmo tempo. Quem gosta de séries como Lucifer, The Librarians, The Exorcist e Mozart In The Jungle (essa última uma queridinha minha, em especial), se vê naquela situação um tanto decepcionante de que nunca verá a resolução dos cliffhangers que cada uma delas deixou.

É ainda mais frustrante para essas pessoas que as séries que tanto gostam terem sido abandonadas justamente no momento em que vivemos, a tal da era de ouro dos seriados. O volume de produções desse tipo nunca foi tão grande, e continua a aumentar ano após ano. Mesmo os canais tradicionais tendo uma participação considerável nesse aumento de volume – e de qualidade –, uma parcela considerável desse auge também se deve à presença dos serviços de streaming, como Netflix e Amazon Prime Video, que já estão presentes no Brasil, e muitos outros que ainda não chegaram por aqui, especialmente aqueles afiliados a estúdios específicos, como o Showtime, que produziu a última temporada de Twin Peaks, e All Acess, que está produzindo a nova série de Star Trek.

Vendo a quantidade de coisas produzidos para essas mídias, é natural que os fãs se perguntem por que um seriado foi cancelado para dar lugar a outra coisa cujo valor pode ser questionável. Seria de se esperar que, pelo menos, aquilo que foi cancelado por X pudesse ser revivido por Y, ainda mais com uma base de espectadores fiel. E, em alguns casos, isso de fato acontece. Nessa última leva de cancelamentos, as série felizardas foram Brooklyn 99 e The Expanse. Queridinha da crítica, Brooklyn 99 é do mesmo criador de Parks na Recreation e The Good Place, e a surpresa pelo cancelamento foi tão grande que foi quase que imediatamente adotada por um outro canal.

Eu mesmo recebi a notícia do cancelamento de The Expanse com um baque, como todo mundo que me segue no Twitter deve ter percebido. Não fazia sentido para mim que uma série tão boa pudesse ser cancelada. Tudo bem, é um seriado de ficção-científica, mas a Netflix estreia um desses por mês e parece se dar muito bem com isso, provando que existe público. Ao mesmo tempo, é uma série que agrada mesmo quem procura outras coisas no seu entretenimento: o elenco é, possivelmente, um dos mais diversos atualmente na telinha, e as intrigas políticas são tão profundas que deixam qualquer Game of Thrones ou House of Cards no chinelo, ao ponto de que, seu eu não já tivesse feito o erro de cursar Relações Internacionais na minha graduação, talvez esse seriado me deixasse balançado a entrar na área.

Ao contrário de Brooklyn 99, a confirmação de que The Expanse continuaria, agora na Amazon Prime Video, demorou para sair, e a tensão nesse meio tempo me fez questionar justamente qual seria a utilidade de serviços de streaming dedicarem milhões de dólares para produção de conteúdo se não para salvar seriados como esse. Existem muitos motivos que podem levar uma série a ser cancelada: o custo de produção pode ser muito grande, a audiência muito pequena, os protagonistas ou diretores podem se envolver em escândalos. Todos esses são motivos válidos – e, em alguns casos, mesmo necessários – de se encerrar uma série sem um desfecho. Mas quando esses elementos não se encontram, será que vale faz sentido, do ponto de vista do entretenimento, eliminar uma produção só para dar espaço a outra?

Os streamings, especialmente no começo de suas carreiras, poderiam ser provas do contrário. A Netflix, por exemplo, usou a captação de séries com públicos cativos para atrair novos assinantes. Gilmore Girls, Full House, Black Mirror e Arrested Development entram nessa lista. Eles até criaram um novo Perdidos no Espaço, só para se aproveitarem do público que pode se lembrar da marca. Mas, cada vez mais, o foco vem sendo voltado para produções originais, provavelmente para facilitar os tramites legais envolvidos. Não deixa de ser triste ver que algumas séries não puderam se beneficiar disso. Seria incrível que Pushing Daisies ou Firefly tivessem existido numa era em que esse tipo de ressureição fosse possível, ou que Hannibal tivesse o apelo para todos os públicos que isso parece necessitar para acontecer.

O processo que define quem sobrevive ou não é, portanto, bastante parecido com a seleção natural. Nem sempre a forma que sobrevive é a mais merecedora, mas sim aquela que melhor se adequa a um conjunto de fatores relativos à sua produção. Eu nunca tinha assistido Brooklyn 99 até todo esse bafafá de seu cancelamento e volta por cima. Vendo que uma das minhas séries preferidas estava na mesma situação, e que adoro as outras séries do mesmo criador, decidi dar uma chance. E estou vendo os capítulos num ritmo alucinante. Em grande parte porque é o tipo de série que você pode deixar passando sem prestar muita atenção. É divertida, mas eu provavelmente não teria dado a ela uma sobrevida. Mozart In The Jungle, por outro lado, bem que merecia… E assim continua o círculo de alegrias e decepções de quem é fã de seriados.

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