Amarelo-mostarda e outras felicidades

Por Carla Schmidt

Sou propensa a devaneios, a louca da nostalgia, vivo no passado e tenho quadros depressivos há mais tempo do consigo racionalizar.

Aprendi a lidar com isso de vários modos. Um deles consiste em dar espaço para que os pensamentos corram soltos e despreocupados pelos cantos da minha cabeça até que cansem de ser abstratos e explodam mais organizados no papel. Escrever sempre foi um refúgio, um momento de ritmo entre mim e a folha branca, quase um diálogo. No final, ao invés de ser digerida pela ideia, a transformo em algo palpável que eu consiga destruir.

Funciona por um lado, mas, pessoa visual que sou, sei que, por outro, escrever também ajuda a fixar. Essa terapia tem como efeito colateral queimar, em parte escondida da pele, algum resquício de tristeza.

Há alguns anos, ganhei um caderno branco que uma amiga mandou colorir e eu comecei um projeto pessoal de escrever nele quando os pensamentos que me varressem fossem agradáveis. Decidi que se a tatuagem fosse inevitável, que fosse num lugar que não doesse. Fiz um baú de lembranças boas, uma tentativa bem-intencionada de encoleirar a felicidade. Acontece que eu cheguei num ponto em que a obsessão de tentar encher as páginas me esvaziou.

A realização de que eu não podia ter sempre dias felizes foi frustrante e comecei a inventar entradas no caderno ou puxar lembranças bem construídas de um tempo mais gentil. E caí na espiral nefelibata de que vivia fugindo. Foi minha pior fase, de quase despersonalização, esperando viver o que eu escrevia e olhando para mim mesma na terceira pessoa. Minha ansiedade voltou como um acesso de febre, então eu tive que abandonar o projeto.

Com os anos, com ajuda profissional e de família/amigos, com muita tentativa e erro, eu consegui um certo equilíbrio. E quando a oportunidade de desenterrar esse caderno surgiu, vi nessa ideia uma chance de me entender com a felicidade, de parar de tentar domesticá-la.

Meu avô faleceu recentemente. Ele vai ser pra sempre uma das minhas pessoas favoritas no mundo inteiro. Chorei, sofri e tentei lidar com isso daquele jeito habitual de pôr pra fora a dor de forma escrita. Rabisquei metáforas para explicar como a “minha alma” tinha “parado de cantar”, mas acabei transcrevendo uma piada que ele contava sempre. E mais outra. E o jeito que, depois de zombar da minha solteirice, ele escutava o riso na minha voz no telefone e dizia que meu sorriso “preenchia a lacuna”. Nada preenche a que ele deixou, mas as memórias que eu tenho dele eu consegui manter intactas no fato de serem boas.

Percebi que assim como eu tenho direito aos meus sentimentos, também tenho controle sobre aquilo que quero lembrar. E recomecei do zero meu projeto. Escrevo o que me faz feliz, o que teve graça, uma frase bonita, uma recordação quentinha (sim, com equilíbrio a gente consegue visitar o passado sem ser residente nele). Entre as minhas felicidades preferidas: ser o B daquela sigla, ipês florescendo fora de época, pastéis de feira, uma velha elegante que sempre me dá bom dia e amarelo-mostarda.

Yep. Sempre achei amarelo uma cor que não podia ser minha favorita, nem que eu conseguiria usar porque, sendo loira e muito branca, sempre ouvi que me apagava, que não combinava. Então minha irmã me deu uma bolsa amarelo-mostarda e eu quero viver nessa cor, que tem uma página só dela e quase não falha em me fazer sorrir quando eu releio o caderno.

Não vou mentir, fico dias sem dar entrada nesse diário. De vez em quando nem quero relê-lo, ou nem faria sentido porque eu preciso me sentir mal pra passar. Às vezes já não acho graça do que foi engraçado e, em outras ocasiões, a alegria dessas entradas me irrita. Esse caderno não me “curou”, eu não escrevi o primeiro parágrafo deste texto no presente sem querer. Essa ainda sou eu.

Não acho que essa ideia vá salvar você, que seria alternativa de tratamento. Mas alguns suicídios noticiados recentemente me fizeram refletir sobre o jeito que eu já pensei a felicidade, o que esperei dela e como foi viver sem ela. Só olhando de longe disso que dá pra entender que a vida não deixa de valer porque ela saiu de férias. Feliz não é um ente completo: a gente vai encontrando seus pedaços por aí, ou esses pedaços vão encontrando a gente.

Eu os tenho recolhido mais e mais recentemente, e não atrapalha ter um documento que comprove que felicidades existem quando eu acordo sem lembrar que tem gente que se importa comigo, que mídias sociais são uma farsa e que a minha vida está indo conforme o planejado, só que de forma mais lenta.

Que comprove que pra todo o dia ruim tem uma página de “amarelo-mostarda”.

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