Representatividade LGBTQ+ e a pergunta que sempre me fazem

Por Ana Chonps

Oi, eu sou a CHONPS e sou cantora. Eu normalmente me apresento assim, mas tem outros um milhão de frases que eu consigo pensar para me definir ou redefinir, contar mais sobre mim, o que eu faço ou como eu me relaciono com o mundo e as pessoas ao meu redor. A maioria das pessoas, no entanto, sempre me define pelo fato de que eu sou uma mulher bissexual que na maioria das vezes se relaciona com outras mulheres. E sempre me perguntam porque minha Arte é sempre voltada para relacionamentos lésbicos.

Eu amo mulheres e não tenho problema nenhum com isso. Pelo contrário, tenho muito orgulho e fiz disso a maior matéria prima de trabalho. O que eu acho engraçado é quando as pessoas, normalmente heteros, que me definem por ser exatamente uma mulher bi mas me questionam tão frequentemente porquê eu falo tanto sobre isso. Na vida real, eles talvez me agridam, verbalmente ou fisicamente, por amar mulheres. Eles não me agridem por gostar de animais, ser apaixonada por Ovomaltine, ouvir música pop, não saber dançar, fazer massagem, rir quando eu estou nervosa ou gostar muito de rosa. Eles me agridem porque 1) eu sou mulher e 2) eu gosto de meninas, sempre gostei e me recuso a ser silenciada sobre isso.

O que eu acho irônico é que eles me definem por ser bissexual, mas não querem que eu me defina por isso. Eu falo isso porque as pessoas heteros são um milhão de coisas e ser hetero é só mais uma delas. Eles tem esse privilégio porque a heteronormatividade faz com que ser hetero seja o padrão, o “normal”. Ninguém precisa ficar lutando por direitos heteros, se assumir hetero, ter medo por ser hetero, sofrer preconceito ou não conseguir um emprego por ser hetero. Isso significa também que ninguém precisa falar sobre representatividade hetero. Mas quando eu falo sobre a necessidade de representatividade LGBTQ+, muitos me questionam por quê eu dou tanta ênfase à isso, por quê um personagem precisa falar abertamente sobre ser LGBTQ+, por quê não adianta dizer que isso é só mais um traço dele. A resposta é: porque cada vez que um personagem não fala com todas as letras que não é hetero, vão presumir que ele é. E cada vez que só vemos personagens a heteronormatividade ganha força.

Um caso muito famoso recentemente foi o de Dumbledore, que nunca falou de nenhuma forma sobre sua sexualidade e que foi revelado ser gay depois que Harry Potter já havia acabado. A justificativa de J.K Rowling é que ser gay não era a coisa mais importante sobre ele, que era apenas mais um traço. E é verdade, como Potterhead eu posso afirmar que tem um milhão de características que vêm à minha mente antes de eu pensar em “definir” Albus Dumbledore como um homem gay. Assim como eu penso sobre mim de várias formas diferentes antes de me definir apenas como mulher bissexual. Mas a verdade é que nós ainda não chegamos nesse mundo onde a sexualidade será apenas mais um traço de personalidade. Não revelar que Dumbledore era gay durante a série apenas fez com que todo mundo presumisse que ele era hetero e que todas as crianças, adolescentes e adultos LGBTQ+ perdessem a chance de se verem representados. Representatividade velada é só um jeito discreto de parecer inclusivo e não ser de verdade. Ninguém acha que o Harry se define por ser hetero, mas ele continua tendo relacionamentos heteros durante a saga.

Quem não precisa lutar por representatividade não sabe o quanto ela faz falta. Da mesma forma, quando todos os heteros questionam porquê eu quero falar sobre ser bissexual o tempo todo, eles estão maquiando o discurso de “tudo bem ser gay, mas não precisa ser afeminado”, “tudo bem ser lésbica, mas precisa se beijar em público?” e tantas outras afirmações homofóbicas. O que eles querem dizer, mais claramente, é: “eu não quero que me achem homofóbico, mas eu realmente sou” e “isso não é normal e eu não estou confortável com isso”. E isso não pode nos calar, na vida real ou na ficção (que nada mais é do que um espelho, possível ou concreto da vida real também).

Então quando eu, enquanto cantora, decido que todos os meus videoclipes serão sobre mulheres, explicitamente, é uma decisão consciente. Eu não quero que espectador nenhum tenha dúvidas sobre o que eu estou falando: eu estou cantando sobre amar mulheres. Eu quero que todo mundo que não se vê em nenhum lugar, se veja ali. Que saiba que o amor LGBTQ+ é válido, lindo, real e presente. Que normal é se sentir bem consigo e com o seu par.

Eu não estou fazendo minha Arte para ser paupável pra homofóbicos. Se o público hetero assistir meus clipes e ama-los, eu fico muito feliz – amor e apoio são sempre bem vindos. Mas eu não faço meus clipes para eles. E se vierem me questionar mais uma vez por quê eu insisto em representar com todas as letras (e cores) o amor LGBTQ+, vou ser bem direta: porque eu quero, porque nós merecemos. Nós somos muito mais do que LGBTQ+, mas nós somos LGBTQ+ também. E tem um milhão de outras coisas que me definem, mas a empatia e amor que essa me ensinou provavelmente é a da que eu tenho mais orgulho.

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