Comédia em tempos sombrios

O Nobel não é o único grande prêmio de literatura que decidiu por pular o ano de 2018 no seu calendário. Uma das maiores premiações dedicadas exclusivamente a livros de comédia decidiu seguir o mesmo caminho. Mas a situação aí foi bem diferente. O cancelamento não decorreu de nenhum escândalo ou de situações que poderiam colocar a credibilidade de seu comitê decisório em cheque. Muito pelo contrário, o que aconteceu foi que nenhum dos livros submetidos conseguiu unanimidade em causar riso nos jurados. É de se imaginar que as diferentes pessoas tenham rido com coisas distintas, mas parece que estamos numa época particularmente difícil de ver alegria, mesmo naquelas construções culturais que se propõem a fazer exatamente isso.

É possível que isso seja um efeito de uma sociedade extremamente fragmentada. Aquilo que faz o conservador gargalhar causa pavor nas pessoas progressistas, e vice-versa. Mas, mesmo que não entremos nesse tipo de particularidade, outros elementos podem entrar em jogo. Para mim, por exemplo, a sensação de ser a pessoa deixada de fora de uma piada interna surge sempre que me deparo com um meme. Essa forma, que parece ser uma daquelas onde o humor da minha geração se manifesta de modo mais consistente, me parece muito sem graça. Diante de um cenário como esse, tentar julgar o humor por uma espécie de apelo “universal” parece impossível e ingênuo. Ao mesmo tempo, será que não deveriam existir coisas que, ainda que não agradem 100% da humanidade, pudessem ser tidas como engraçadas por pessoas em diversos contextos?

Talvez a questão seja que, como apontou Amy Poehler, nós simplesmente vivemos numa época em que é difícil ver alegria em qualquer coisa. Com tantas convulsões políticas, a constante necessidade de nos mantermos a postos para impedir que direitos sejam tolhidos (e muitas vezes vendo fracassos nesse front) ou mesmo naqueles aspectos que geram alguns efeitos positivos, que esses venham atrelados a revelações que balançam nossas crenças, tudo isso contribui para que a comédia possa parecer um simples escapismo, e, mais do que isso, uma forma de fechar os olhos frente a tudo que precisamos fazer.

Pode ser esse o motivo que faz com que a grande parte das comédias contemporâneas não possam ser encaixadas nesse gênero de modo simplista. As dramédias estão cada vez mais em voga, e os seriados demonstram isso de forma muito categórica. Como uma pessoa que nunca teve muito apreço por séries de drama (quem sabe um dia não faço um texto falando por que acho que Mad Man e Braking Bad são algumas das mais erroneamente valorizadas no ramo?), as comédias sempre foram meu refúgio. Se há alguns anos programas humorísticos relativamente simples como Friends, Gilmore Girls ou mesmo Seinfeld (apesar de achar essa última também sobrevalorizada) dominavam a TV, hoje são raros os exemplos que se mantém atrelados às convenções dessa forma, alguns com resultados incríveis (como The Good Place), outros nem tanto (como Brooklyn 99).

O destaque vai mesmo para aqueles seriados que partem de elementos engraçados, mas estão repletos de sacadas e tramas que estariam mais à vontade em séries dramáticas. Não acho que isso seja algo ruim, muito pelo contrário, as séries que mais me cativaram nos últimos anos estão nessa categoria. Fleabag poderia ser um dos dramas mais trágicos da televisão, mostrando da forma que mostra a história de uma mulher em depressão, com sua vida desmoronando ao seu redor no meio de um processo de luto pela morte de sua melhor amiga, mas a genialidade de Phoebe Waller-Bridge faz com que transcenda essa condição através de um humor afiado, tão afiado que realmente machuca quem assiste. Trocando as ironias por um humor mais convencional, Crazy Ex-Girlfriend faz algo parecido, apresentando uma protagonista que, em outras situações, seria trágica.

Esse distanciamento de uma comédia simples, por vezes boba, pode ser necessário para que algumas séries possam tratar de questões sérias, como fazem também Master of None e Atlanta. Se, por exemplo, Friends tentasse abordar alguns dos temas explorados por essa safra mais recente de comédias, o resultado seria decepcionante, provavelmente até mesmo desrespeitoso, nos moldes dos “episódios muito especiais” que marcaram – e ridicularizaram – a memória de Blossom, por exemplo. E os revivals de comédias dessa “era dourada” mostram como estão fora de sincronia com a nossa realidade atual, como Arrested Development demonstra repetidas vezes.

Ao mesmo tempo, o gosto que essa mistura de comédia e drama deixa na boca é um tanto ambíguo. Podemos tentar ver isso de uma forma positiva, que a graça está ali, no meio de tanta tragédia, para nos dar esperança, para mostrar que ainda existe algo de bom, mesmo nos momentos mais difíceis. Ao mesmo tempo, aumenta a sensação de impotência. Será que tudo que podemos fazer em situações como essas é buscar um resquício de esperança? Se os livros que foram avaliados pela comissão do Wodehouse Prize existiam nesse limiar, é compreensível que tenham achado uma obra que lhes parecesse digna de receber o prêmio, o significado de comédia não é hoje o mesmo que era há alguns anos.

A comédia, hoje, parece querer nos levar à reflexão muito mais do que ao riso. É importante que todos os recursos possíveis sejam usados nesse sentido, e que em momentos como esse, a comédia se volte para uma complexidade mais condizente com o mundo em que vivemos. Um romance pode ser engraçado sem, necessariamente, ser um romance cômico. Ao mesmo tempo, esse parece ser um peso enorme para jogar nas costas de qualquer produção cultural: fazer rir e refletir ao mesmo tempo é algo extremamente difícil de se fazer, e nem sempre é algo que gostamos de fazer ao mesmo tempo. Por mais que Fleabag e Master of None estejam entre algumas das minhas peças de entretenimento preferidas nos últimos tempos, de vez em quando ainda precisamos de umas boas risadas, sem maiores expectativas.

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