Mulheres na Copa

Copa é cultura pop. E é divertida pra caramba. Polônia e Japão jogando e as pessoas querendo que eu funcione em condições normais de temperatura e pressão. Francamente… Se tivesse me planejado minimamente, teria tirado férias para acompanhar os jogos.

Já acompanhei futebol mais de perto e depois parei. Mas Copa é Copa. Tem um monte de gente foda jogando, tem times participando pela primeira vez, tem campeão que ficou de fora, tem a perspectiva de hexa, tem Alemanha eliminada. É muita emoção. É muito meme [diferente do Emannuel, eu gosto deles]. Tem um milhão de problemas envolvidos e não largo mesmo assim.

E a edição 2018 veio com algumas mudanças em relação às mulheres. Na Fox Sports 2, quem narra os jogos são mulheres. Poderia ser no Fox Sports 1. Poderiam ter mulheres em outros canais esportivos. Mas é um pequeno avanço, fez uma diferença. Foi um comentário de uma narradora que atraiu minha atenção para uma reportagem do El País, sobre o fato de seis dos 11 titulares da seleção serem filhos de mães solteiras. Pode parecer um comentário irrelevante para alguns – mas é mais interessante do que ficar ouvindo especulações sobre como Neymar está se sentindo no dia.

E, geralmente, pensar em mulheres e futebol dá um desânimo. Não só pela óbvia disparidade de cobertura entre torneios. Ficando apenas no âmbito da torcida, parece que mulher tem que saber tudo para poder acompanhar, inclusive a escalação daquele time do interior do Paraná na disputa de 1847. Cadê seu certificado de proficiência em futebol? A Folha colocou duas mulheres para comentar a Copa. Uma delas fez um texto se perguntando justamente o que fazia ali, já que não é assim tão entendida do assunto. Minha primeira questão foi pensar: precisa ser? Sim e não. Quantas pessoas (homens) escrevem qualquer coisa sobre Copa, inclusive amenidades, e tudo bem, ninguém questiona o que estão fazendo ali. O que me faz lembrar da questão do filme da Mulher Maravilha: um filme do gênero super-heróis para ser estrelado por uma mulher precisa ser genial. Na verdade, só seremos iguais quando uma super-heroína for o centro de um filme ruim e isso não acabar com todos os filmes estrelados por mulheres no gênero. Por enquanto, o nível de exigência – no cinema e no futebol, mas na vida como um todo – entre um e outro segue bem diferente.

Por outro lado, nessa discussão da Folha, uma amiga me apontou que, embora isso seja verdade, o jornal não tem uma mulher que de fato manje do assunto comentando futebol. Opa, aí é um problema: porque nos relega ao papel eterno de espectadora, quando tem muita mulher que entende de futebol e poderia se convidada a escrever durante a Copa. Isso implicaria em um esforço extra do jornal: encontrar essa pessoa – talvez procurando fora das colaboradoras existentes – e pagá-la por isso. Parece que atingimos uma barreira, não?

As Dibradoras fizeram uma matéria sobre a presença feminina na Copa 2018, especialmente nas propagandas e anúncios relacionados ao evento. Fico dividida. Confesso que me sinto emocionada ao ver mulheres atletas ali na tela, uma representação de nossa já existente inclusão no esporte. E também um pouco aliviada ao ver mulheres não serem apenas bundas nos intervalos. Falando nisso, lembra da música de 94? A Daniela Mercury e a Iza gravaram uma versão massa para esse ano.

Por outro lado, fico me perguntando o quanto essa estratégia publicitária se reflete em patrocínios para times femininos no Brasil e no mundo. E, mais ainda, se quando existentes, são feitos na mesma medida dos patrocínios para os times masculinos (resposta: não). Valorizar nosso futebol passa por muito mais do que nos incluir nas propagandas. Mas, de novo, um pequeno avanço – embora não suficiente – dá um alento. Já é um contraponto em relação aos closes nas mulheres nas arquibancadas da Copa: ou são muito gatas ou são mães com crianças fofas. Não tem outro tipo de torcedora, Fifa? Só essas acompanham os jogos?

Só que parece que nunca estamos satisfeitas, né? Tem mulher na torcida – a gente reclama. Tem mulher narrando – a gente reclama (que podia ter mais destaque!). Tem mulher escrevendo sobre a Copa nos jornais – a gente reclama. Tem mulheres atletas nas propagandas – a gente reclama.

Sabe o que é? A gente também cansa de se contentar com os pequenos avanços. E de parecer que, por fazer o mínimo, pessoas e empresas devem receber um milhão de elogios. Tem repórter sendo assediada enquanto trabalha, quando ser jornalista esportiva já é foda. Tem gente fazendo comentário escroto sobre a Bruna Marquezine quando o namorado dela vai mal. Tem turista babaca assediando mulher que não entende o idioma. Então legal ter tudo isso aí rolando, só que dá para melhorar. Afinal, Copa é divertida e poderia ser mais se a gente pudesse aproveitar e cobrir do mesmo jeito.

[Obrigada, @croniquices, por me indicar vários links para esse texto!]

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