Clube do Livro: Lincoln no Limbo

Por Emannuel e Marília

[contém spoilers]

Marília: “Lincoln no limbo” é o primeiro romance de George Saunders, autor bastante conhecido por seus contos, novelas e livros infantis. Ganhador do Man Booker Prize de 2017, o livro se passa na noite após Willie, filho do então presidente dos Estados Unidos Abraham Lincoln, ter sido enterrado. O nome original “Lincoln in the bardo” deixa mais claro o tom da obra – bardo é, para o budismo tibetano, um estado de existência intermediária entre a morte e o renascimento. Alguns críticos retrataram esse… espaço (?) como um purgatório, mas me parece que a noção cristã não faz muito sentido dentro da obra. Willie, então com nove anos, falece em decorrência de febre tifóide, diagnosticada (erroneamente) num primeiro momento como uma gripe forte. Ele foi o segundo filho de Lincoln a falecer, embora isso não seja mencionado na obra. Pelo que vi em alguns artigos, o autor descobriu que o presidente havia visitado a cripta do filho algumas vezes e resolveu desenvolver o romance em torno disso. Porém a história não foca exatamente em Lincoln e em Willie. Na verdade, a estrutura do livro é bastante diferente, sendo considerado inclusive um romance experimental. Ele mistura trechos de documentos históricos (com citação e tudo) com uma série de diálogos entre os “fantasmas” que moram no cemitério de Oak Hill, onde o menino foi enterrado.

Emannuel: Eu fiquei mesmo me perguntando se tinha algum motivo para a história girar em torno desse acontecimento da família Lincoln. Porque, até certo ponto, não tem a menor necessidade disso. Imagino que esse enfoque deve ser um dos pontos que vendem o livro nos EUA, mas não poderia ser menos interessante para mim. No entanto, conforme fui lendo, a escolha começou a me parecer cada vez mais acertada. Não que tenha passado a me interessar mais pelo presidente estadunidense ou pela história do país, mas entendi do ponto de vista da escrita. Girar ao redor de uma figura pública assim tão registrada faz com que o autor possa justificar a variedade de vozes que surge no texto. Por mais que a história pudesse acontecer com outra pessoa, quem teria tanto escrito sobre sua vida quanto um presidente? E esse recurso também ajuda a misturar realidade e ficção. Pelo que fiquei sabendo, algumas das citações que constituem o livro foram tiradas de outras obras que existem de verdade, mas também estão presentes algumas saídas de relatos ficcionais. E certamente não consigo saber com certeza quais são quais. O volume chega a ser um pouco exagerado no começo, mas acho que com a leitura fui me adaptando, inclusive deixando de ler algumas das atribuições das referências.

Marília: História americana não me interessa e dificilmente leio sobre. E parte desse desconhecimento impacta minha leitura do livro, porque provavelmente não peguei muitas referências. Dito isso, não precisa ter interesse nos EUA para ler o livro. Ele vale a pena por si só. Procurei não ler nenhuma crítica sobre o livro antes de começá-lo e, por isso, rolou uma surpresa com esse modo de fazer as coisas. Fiquei bastante confusa no começo, sem entender o que estava acontecendo. Os documentos citados trazem relatos que abordam desde a madrugada em que o menino veio a falecer – quando os Lincoln sediaram uma grande festa na Casa Branca – até o momento em que o presidente deixa o cemitério. É bastante interessante como esses relatos muitas vezes se contradizem, se opõem ou se reforçam, e dão um tom muito bom para a história que Saunders desenvolve. Achei particularmente curiosos alguns descrevendo Lincoln, em que não há consenso sobre a cor de seus olhos ou sobre ele ser um homem feio ou bonito. Uma variedade de visões e pontos de vista que refletem o momento de divisão vivido pelo país. Inclusive, eles ajudam o tempo todo a lastrear a situação particular da perda familiar com a perda coletiva – de soldados, por exemplo – que o país vivia. Além disso, como disse, o romance também se desenvolve pelas falas desses espíritos que vivem no cemitério, embora eles mesmos não se considerem exatamente mortos. Não há parágrafos com descrições do local ou dos personagens, uma estrutura que lembra muito a de uma peça. Na verdade, em mais de um momento, fiquei imaginando como ficariam perfeitas certas falas num palco, especialmente as interrupções entre Bevins e Vollman, os dois principais dos mais de 150 espíritos narradores.

Emannuel: No fim, foram os fantasmas que me fizeram gostar ainda mais do romance. Fiquei impressionado em como alguns flashs bem simples das suas vidas anteriores e suas falas conseguem construir personagens bem desenvolvidos. E todos os personagens dessa história são aqueles que estão no cemitério, os de fora são apenas um contexto para entendermos melhor as dores e aflições dessas pessoas. Essa parte das aflições é importante, porque todos os fantasmas, em algum nível, sabem que estão mortos, mas não reconhecem isso, seja porque ainda esperam algo da terra, porque acham que podem ter uma outra chance ou simplesmente porque tem medo do que pode vir mais para a frente. Bevins e Vollman tem uma relação linda, e é curioso imaginar que se não tivessem ficado presos a algo na terra, mesmo depois de mortos, não teriam conhecido um ao outro. Nesse aspecto, só senti falta de uma personagem feminina de maior destaque. Elas estão presentes, e algumas delas são marcantes, como a senhora que se tornou avarenta pela necessidade de segurança em vida e transferiu isso para o além, ou a escrava que deixou de falar depois de ser violentada ao longo de toda sua vida, mas nenhuma delas tem um destaque tão grande quanto o trio que tenta ajudar Willie a seguir em frente.

Marília: De fato, há ausências de protagonistas femininas – a própria mãe de Willie, a Mary Todd, é citada aqui e ali, mas tem apenas um capítulo para sua dor. A tensão racial, por outro lado, me pareceu bem trabalhada – ela sobrevive à morte para alguns fantasmas. Aliás, faz muito sentido esse elemento, porque Lincoln é presidente durante a guerra civil americana. A escravidão é a grande questão do conflito. E, voltando a eles, vemos o que eles veem e nos são dadas descrições do local apenas no que tange a situação retratada – ou seja, não temos um mapa do cemitério, embora a descrição do terreno apareça num dos documentos citados. É uma obra bastante sensível mas igualmente engraçada – os diálogos entre os fantasmas são sensacionais, tão bons quanto suas aparências (embora elas mesmas dificultem um pouco a teatralização do livro). São personagens diversos, com origens variadas (inclusive temporalmente falando), e isso aparece inclusive nas falas e vozes de cada um, sem que fiquem estereotipadas ou inferiorizadas. É muito bem estruturado, bem escrito, bem feito.

Emannuel: Como um todo, gostei muito do livro. Recomendo muito para quem, como eu, torcer o nariz ao ver o Lincoln no título, ler mesmo assim! É um livro muito humano, mas sem ser piegas em nenhum momento. Consegue atingir um equilíbrio muito bom. E a capa da edição nacional é linda!

Marilia: Também gostei do livro, que contornou muito bem minha birra com história americana. Dito isso, valem dois adendos: o primeiro é que ainda rola uma leve – leve mesmo – idealização da figura presidencial de Lincoln (afinal, é um americano escrevendo). O segundo é que por mais incrível que seja, faltou alguma coisa, alguma fagulha pra ativar um amor pela obra. Gostei demais da experiência literária, só não gerou um brilho nos olhos. Quem sabe com o tempo? Ah, e além da capa que o Mannu mencionou, ouvi elogios à tradução brasileira – que saiu super rápido. Triplamente celebrável.

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