Gêneros

Você já ficou meio assim de dizer que curtia alguma coisa? Quando bate uma vergonha de dizer que gostamos de um filme, um livro, uma série, não é difícil aparecer o selo de “guilty pleasure”. Sex and the city é um grande exemplo: indicada a premiações mil, a série fez tanto sucesso que ganhou dois filmes. Ainda assim, o rótulo de algo besta, bobo, menininha, ou menor colou e mesmo quem gostava dizia que era um prazer com culpa.

Mais de uma vez, vi essa culpa aparecer para falar de gêneros inteiros. Antes: adianto que vou usar o termo de forma mais livre e leiga, porém tem muita discussão sobre gênero, modo narrativo e estratégias de comercialização de obras. Esse debate tem um pouco a ver com o que vou falar aqui, contudo não me sinto capaz de reproduzi-lo. Por isso, fico na palavra genérica, ok? Mesmo porque a análise em si acaba misturando um pouco das três coisas.

Ficção científica e fantasia passam por um boom já há algum tempo. Seria possível analisar a importância dos filmes DC e Disney/Marvel só pela grana que têm gerado no mundo todo. Ainda assim, há quem olhe como coisa de criança, considerando o público cativo porque cresceu com esses personagens. Num tempo em que nostalgia vende e muito bem, não é difícil associar as duas coisas. Porém reduzir o boom e o sucesso de público a isso, é outra coisa. Infantilizar as pessoas que assistem e gostam dessas obras e produções é deixar de analisar e discutir um fenômeno cultural super importante. Também é desconsiderar esse mesmo fenômeno, relegando-o a algo menor.

O exemplo de Sex and the City não é à toa. Minimizar uma produção pelo público rola muito e aqui a questão dos gêneros se mistura. Como bem aponta Ana Rusche, uma brincadeira possível de fazer em português mas não em inglês: genre (gênero literário) e gender (gênero sexual) são coisas diferentes que em nosso idioma são ditas pela mesma palavra. Quando se refere a coisas para mulheres, a política dos gêneros fica mais complicada.

Por isso não quero dizer que produções marketeadas como femininas são perfeitas. Tem sim redução do papel e da agência das mulheres, tem foco apenas em homem (alô teste de Bechdel), tem centralização da vida romântica da personagem como a essência da mesma. Tudo isso é problemático e deve ser debatido. Minha questão é que quando algo é rotulado como “feminino”, “para mulheres”, “chick qualquer coisa”, o olhar sobre essas produções muda. Elena Ferrante é um grande exemplo: uma das maiores escritoras contemporâneas, cujas obras colocam as mulheres (multifacetadas) no centro. Sucesso de vendas e crítica, a tetralogia da Amiga Genial está em adaptação para a tv pela HBO. E, ainda assim, vale perguntar qual seu lugar nas livrarias? Ela conseguiu sair do nicho “ficção feminina” para entrar no rol com autores que independem de adjetivos?

Isso não se reduz à questão feminista. Obras sobre e de pessoas não brancas e pessoas LGBTs também recebem um tratamento de nicho na comercialização e na crítica. Como a produção “feminina”, suas identidades são parte do que produzem, mas não a única coisa relevante da obra. Lembro de assistir uma mesa de discussão literária em que Amara Moira comenta ser sempre chamada para discutir literatura trans, mas não para falar de Joyce, que é o foco de seu doutorado.

E o que isso tudo tem a ver com o guilty pleasure? Bom, associar gêneros exclusivamente a certas identidades pode trazer consigo a inferiorização dada a essas mesmas categorias. Como em Sex and the city. Romances em geral são outro exemplo. Livros e filmes românticos são vistos como “coisa de menina”, nisso dizendo que são algo menor. Vou reforçar: romances – inclusive comédias românticas – têm problemas e isso não ocorre somente em decorrência do período em que foram produzidas. Afinal, não dá para deixar as críticas só na conta da relativização temporal. Isso vale, aliás, para todo tipo de produção, não só as “femininas”.

Por outro lado, existe sim uma visão de desimportância dessa produção e que tem, sim, a ver com seu público. Assim como a ficção científica e a fantasia, as comédias românticas parecem ter seus períodos de alta, como o final dos anos 80 e o começo dos anos 90. E muitos desses filmes ainda misturam personagens adolescentes (será que seriam chamados de YA hoje?), o que acarreta um duplo olhar menor. Não é só que é um filme bobo de mulher, ou um filme besta de adolescente – são ambos. Aliás, sobre não passar pano para os problemas dessas obras, Molly Ringwald, estrela do período, fez um texto sobre como encara os filmes de John Hughes na era do Me Too.

Em tempos mais recentes, o New York Times resolveu dar uma de descontruidão e entrar na conversa sobre romances (os românticos) na literatura. Botaram um homem que não lê esses livros para fazer a crítica, o que levou a inúmeras respostas (Amanda Diehl fez uma, e Ron Hogan outra). A treta tem muitos pontos, um dos quais envolve sua conclusão de que os livros eram inofensivos e as mulheres também podiam se divertir. Fico me perguntando se alguma produção cultural pode ser classificada como inofensiva…

A crítica é importante porque bate em duas questões. A primeira é que ninguém precisa da permissão de outra pessoa para curtir um negócio. Levantar pontos problemáticos numa obra é necessário e isso pode ser feito sem diminuir quem gosta dela ou minimizar a importância do gênero para quem o aprecia. A segunda é que tá rolando muita discussão importante nos romances, YAs, FC/Fs atuais. O que é ótimo mas não deveria ser a única forma de legitimar esses e outros gêneros. Toda obra traz alguma coisa. Pode ser que traga discussões sobre debates contemporâneos, ou sobre mudanças de estilo, inovações de escrita e manutenção e subversão de padrões e tropes. Ou então faça alguém enxergar alguma coisa de outro jeito, por uma outra perspectiva – como Sex and the city fez em mais de uma ocasião (e olha que tô citando o exemplo de uma série de mulheres-brancas-de-classe-alta-cis-hétero). Por isso, um olhar se não carinhoso pelo menos mais cuidadoso é necessário. Não minimizar gêneros e públicos, não diminui-los é essencial para tirar a parte da culpa dessa apreciação.

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