O retorno das comédias românticas?

Se na edição #65 eu falei de comédias na sua forma pura e simples, dessa vez vou falar de comédias românticas, esse fenômeno que é particularmente cinematográfico (ninguém usa esse termo para literatura, mesmo para obras que inspiram os filmes ou tem a mesma atmosfera, por que será?). E, nesse caso, é necessário ver que é um tipo de filme que teve seu apogeu num período muito específico, aquele entre o fim dos anos 80 e o começo dos 00. Ou não é bem assim?

Tenho que admitir que, nesse aspecto, sou saudosista. Basta ver os títulos que o site A.V. Club reúne na sua coluna “When Romance Met Comedy” (cujo título é uma referência ao clássico “When Harry Met Sally”, de Norah Ephron) que já lembramos de alguns clássicos do gênero que sequer lembrávamos existir. Para mim, as melhores comédias românticas até hoje são aquelas que o Hugh Grant fez nos anos 90. “Notting Hill”, “Quatro Casamentos e um Funeral”, “Letra e Música”. Ele é um ator importante mesmo em “O Diário de Bridget Jones”, apesar de não ser o mocinho. Acho que esses filmes moldaram muito não só das minhas expectativas românticas, mas da minha forma de agir quanto a isso. E esse idealismo é, geralmente, uma das principais críticas que as comédias românticas recebem. Toda sua ideia de amor, a forma que ele é representado, se sustenta em um punhado de clichés que existem no cinema desde os anos 1930.

Em muitos sentidos, esse tipo de idealização é ruim. As pessoas que, inconscientemente, levem aquilo a sério demais vão ter expectativas muito irreais quanto aos relacionamentos que encontrarem em suas vidas. Não que não existam relacionamentos assim, mas mesmo os amores ‘de cinema’ não podem ser assim o tempo todo. Foi esse realismo – assim como uma boa dose se pessimismo mesmo, que se reergueu nos anos 00 – que fez as comédias românticas se tornarem cada vez mais pesadas. “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” sendo o exemplo clássico disso. De certa forma, foi esse filme que pôs um fim à era de ouro das comédias românticas. Não era possível que o gênero se mantivesse ingênuo depois disso.

Desde então, o máximo de otimismo que as comédias românticas parecem se permitir é aquele mesclado com decepções, como em “500 Dias com Ela”, ou os filmes com a Zoe Kazan, por exemplo “E Se?”, “Ruby Sparks” e mesmo o recente “Big Sick”. Se os anos 90 foram do Hugh Grant, as melhores comédias românticas atuais são as com Kazan. Saber que ela está no filme já me dá vontade de ver. Mas nenhum desses filmes tem aquela atmosfera leve e descomplicada. Esses filmes são comédias e são românticos, mas também são dramas. Exceto pelo primeiro, o centro da história não é a trama de duas pessoas se conhecendo e se apaixonando, isso acontece, sim, mas apenas como pano de fundo para uma história maior, no caso de ¨Ruby Sparks”, o tema é a própria idealização dos relacionamentos e as expectativas absurdas que recaem sobre as mulheres nessas situações, enquanto em “Big Sick” o relacionamento fica em segundo plano em relação a uma história de doença e recuperação. Terceiro plano se considerarmos que o choque cultural também é um dos destaques da história que nem sempre está lá para servir o romance.

Ao longo desse período, no entanto, não faltaram tentativas de reviver as comédias românticas, ou ao menos fazer alguma delas que fosse boa, mas a maioria falhou miseravelmente. Um exemplo recente é “Descompensada”, com Amy Schumer. Em seu âmago, o filme é uma comédia romântica em sua forma mais pura. São, inclusive, muitos os paralelos desse filme com “O Diário de Bridget Jones”: uma tentativa de protagonista humana, um interesse romântico que não a interessa por parecer ‘chato’, a relação entre trabalho e romance. Mas é a protagonista que mostra a discrepância entre os dois filmes. Se Bridget Jones nos mostra uma mulher que tem defeitos, mas também qualidades, numa medida que a torna profundamente humana, a do filme de Amy Schumer é simplesmente uma caricatura. A mocinha é apenas uma reprodução ruim de um modelo antigo.

Esse ano, no entanto, a Netflix está tentando reviver a comédia romântica. Até agora já foram pelo menos quatro filmes do gênero lançados pelo serviço de stream só nos últimos meses. Desses, “A Barraca do Beijo” fez sucesso entre adolescentes e “Set It Up” foi bem aceito na crítica. Mas só pode ser porque há muito tempo eles não assistem algo relativamente bem feito nesse estilo, porque, olhando de perto, o filme é uma decepção. Aqui a mocinha parece pré-fabricada no mundo das Manic Pixie Dream Girls, com um estilo que lembra a Summer de “500 Dias com ela”, e ainda tem apelo a toda uma outra demográfica ao ser fanática por esportes. O papel do mocinho, no entanto, mudou. E para pior. Se aquele cara sem jeito mas de coração bom dos anos 90 era um modelo qual muita manipulação emocional pode ter se fundamentado, o mocinho de “Set It Up” é simplesmente um ser humano horrível, cuja maior qualidade é a ambição, enquanto o de “Ibiza – Tudo pelo DJ”, outro da safra da Netflix, que poderia, com sua fama e sucesso, fazer uma participação semelhante àquela de Julia Roberts em “Notting Hill”, simplesmente existe para ser procurado pela protagonista. Com personagens assim, os filmes simplesmente não conseguem ser românticos.

Isso poderia ser um defeito menor em “Ibiza”, que dedica muito tempo à jornada de um grupo de amigas, mas a verdade é que essas nunca saem do status de sidekicks da mocinha, sem assumirem qualquer personalidade própria. Uma delas, inclusive, parece ser a mesma “melhor amiga” da protagonista de “Descompensada”, já que a personagem tem o mesmo nome e é interpretada pela mesma atriz. “Ibiza”, no entanto, prefere não explorar esse lado e contar com um final epifânico no estilo de “500 dias com ela”, mas não consegue sequer isso, pois acaba se desviando para uma mensagem estereotipada de que depois de fazer sexo a mocinha achou coragem para se demitir. Um verdadeiro desperdício da ótima Gillian Jacobs.

Se existe alguma luz no fim do túnel, no entanto, essa parece estar nos filmes que saem da heteronormatividade clássica das comédias românticas, como “Love, Simon”, sobre o qual a Marília escreveu há um tempo, e “Alex Strangelove”. Cabe dizer também que não coloco muita confiança em comédias românticas no formato de séries de TV, como em “You’re the Worst”. Apesar de gostar do seriado, acho que é impossível manter a estrutura de uma comédia romântica por temporadas sucessivas. O que forma o gênero é o ato de duas pessoas se apaixonarem, e a necessidade de um elenco fixo atrapalha esse percurso. As idas e vindas dos casais da TV acabam fazendo com que outros elementos além desse entrem na trama e ocupem um espaço central. O que acontece depois que as pessoas se percebem apaixonadas já não é mais comédia romântica, é outra coisa. Por isso, acho que uma das únicas séries que retrata isso relativamente bem é “Master of None”, por focar em relacionamentos distintos em suas temporadas.Mas, como alguém que adora o gênero, só posso manter as esperanças de que em breve exemplos melhores apareçam para fazer meu coração palpitar.

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