Amnésia programada

Nos idos de 2002, a revista Dragão Brasil (que voltou com edição digital em 2016, depois de uma década fora das bancas) lançou um livro reunindo algumas edições da sua coluna “Dicas de Mestre”. Naquela época eu era um adolescente nerd que queria muito um grupo de amigos para jogar RPG, então li aquelas páginas como se não houvesse amanhã. Folheando agora, fico em pouco impressionado com como consigo me lembrar de algumas das coisas que estão naquele livrinho mesmo tantos anos depois. Aquilo foi importante para mim num nível tão grande que o meu gosto pela escrita pode ser, de certa forma, um desdobramento de nunca ter conseguido ser mestre de uma campanha de RPG; mas, ainda assim, não esperava que alguns detalhes continuassem tão frescos no meu cérebro. Um desses trechos, por acaso, fala justamente sobre a memória. Usando uma citação de “A Study in Scarlet”, Marcelo Cassaro diz que Sherlock Holmes considerava a memória humana como uma espécie de quartinho, que podemos mobiliar como quisermos, mas cujo espaço é limitado, uma hora vamos ter que tirar coisas de lá para colocar novos móveis, então devemos escolher bem a decoração.

Curiosamente, uma técnica mnemônica antiga, a do palácio da memória, ou da mente, é, hoje, muito relacionada a Sherlock Holmes. Esse modo de lembrar coisas consiste em relacionar lembranças a um espaço, pois, teoricamente, a capacidade humana de lembrar esse tipo de informação é maior. Além disso, pode ser usado um lugar que a pessoa conheça profundamente, talvez para alimentar a capacidade de relembrar com um fator emocional ou simples força do hábito. Embora a técnica real não seja exatamente como é representada no seriado da BBC, é curioso ver pela internet pessoas perguntando se algo parecido é realmente possível. Acho que isso se deve, ao menos em parte, a quão estranho para nós é o ato de lembrar ativamente de algo. Embora técnicas como o palácio da memória tenham perdido sua popularidade por volta do século XIX, até muito recentemente nós ainda éramos obrigados a lembrar de muitas coisas. Algumas delas faziam sentido, como os números de telefone daquelas pessoas com quem gostávamos de falar frequentemente, outras nem tanto, como o enfoque que os cursos de história tinham na decoreba de datas e coisas assim (embora, para ser sincero, eu ache que esse tipo de coisa é mais importante do que gostamos de admitir às vezes, especialmente para acadêmicos, mas também para pessoas em geral).

É fácil relacionar uma possível perda de memória às condições que são implícitas na vida contemporânea. A quantidade de informação que recebemos hoje, todos os dias, é muito maior do que aquela com a qual as pessoas da antiguidade tinham que lidar. Além das informações cotidianas, como saber se o feijão em casa está acabando ou que horas é a reunião na próxima segunda, também tornamos o consumo de informação uma das bases da nossa rotina, vendo um noticiário, lendo uma lista de filmes prestes a serem lançados ou, volume incomensurável, entrando numa rede social qualquer. A maior parte dessa informação que consumimos, no entanto, é dispensável, o que também cria um hábito de relevar a informação, já que, caso contrário, o quartinho no nosso cérebro ia explodir. Mas como decidir o que merece ser lembrado e o que nem precisávamos ter visto para começo de conversa? Talvez algumas coisas tenham esse valor evidente para cada pessoa, mas acredito que todo mundo também enfrenta situações nas quais fazer uma definição assim é mais difícil. Sem falar que, dado esse volume enorme, mesmo o ato de decidir sai do nosso controle. Quem nunca ficou com uma propaganda ou música ruim ocupando a memória enquanto aquelas coisas que gostaríamos de lembrar (talvez a data de aniversário de alguém importante na nossa vida) simplesmente escapa?

Tentamos resolver essas contradições transferindo nossa memória para fora do nosso cérebro, meio que tentando construir um puxadinho para o quarto da nossa memória. As agendas estão aí para isso e, num nível mais pessoal, o mesmo é o caso dos diários. Mas a verdade é que a maior parte dessa extensão também é digital. Pode ser um arquivo do bloco de notas onde você coloca informações que considera importantes, ou um lembrete do calendário do celular. Eu, por exemplo, marco assim todos os freelas que faço, assim como todos os restaurantes que me parecem interessantes e posso tentar explorar um dia. Uma das supostas facetas das redes sociais também é essa. A Marília já falou desse aspecto no GoodReads, assim como a complicada relação com o luto que surge nessas configurações. Essas extensões da nossa memória são complicadas justamente por fugirem do nosso âmbito pessoal. Elas estão ali, eternizadas fora da nossa cabeça, num lugar onde nem nosso inconsciente pode interceder para que se adequem às nossas necessidades emocionais e mentais. Como fica o direito ao esquecimento nisso tudo? Pode ser até fácil deletar uma anotação ou uma foto numa rede social, mas ela continua existindo nas nuvens mundo afora, ao mesmo tempo que se torna extremamente difícil de ser resgatada depois. Talvez precisemos esquecer algo agora, mas queiramos poder lembrar daquilo de forma diferente nos anos vindouros. Ou talvez precisemos superar algo e sejamos impedidos pela existência daquela memória em algum lugar. Minha caixa de entrada de e-mails é relativamente organizada. No momento em que escrevo isso, só tenho 6 mensagens, todas lidas. Uma delas, no entanto, tem cinco anos, e não sei se um dia vou estar emocionalmente preparado para tirá-la de lá.

Outro aspecto de relacionar memória às redes sociais é aquele relacionado ao ato de, nesse modelo, preferir a memória à experiência. O Instagram é onde essa marca parece estar presente de forma mais forte. Não raro vamos a um show no qual muitas pessoas parecem assistir à apresentação pela tela do celular, enquanto gravam ou tiram foto daquilo. É inegável que, enquanto recordação, esses atos são de valor. Afinal, quem nunca olhou uma foto antiga e relembrou como se sentia naquela situação, ou ao menos se viu forçando a memória para isso? Mas, ao mesmo tempo, como vamos lembrar de uma emoção de valor se a nossa experiencia se voltou unicamente a registrar aquele momento para um eventual reencontro futuro? E olha que estou considerando aí o melhor dos casos, sendo que o mais provável é que essa foto não seja usada como lembrança, mas como moeda de barganha no mundo virtual, que presa tanto as experiências, ao mesmo tempo que parecem reduzi-las a elementos que possam ser mostrados. Por isso, não concordo muito quando dizem que millenials priorizam experimentar ao invés de ter. Afinal, a foto de um prato de comida lindo no Insta é algo completamente distinto do seu sabor, da situação na qual se come, ou seja, de tudo que poderia criar uma memória real dele.

Me parece, portanto, que a lembrança é um campo de batalha hoje em dia. Por um lado, temos uma valorização extrema da criação de recursos de memória, ao mesmo tempo que eternizamos sua existência, para o bem ou para o mal. Por outro, temos cada vez mais dificuldade de criar lembranças reais, a partir de experiências significativas e, mais ainda, de conservar essas recordações de um modo sustentável. Pode ser um fator da idade, mas, cada vez mais, tenho dificuldades para lembrar de tudo. Mesmo para escrever esse texto, tive antes que consultar nosso blog para conferir se realmente não tinha escrito nada sobre memória anteriormente. De certa forma, sinto falta daquele Emannuel antes da internet ou do celular, para quem um livro de RPG teve um valor tão grande a ponto de ser lembrado em detalhes ainda hoje.

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