Clube do Livro: O Caminho de Casa, de Yaa Gyasi

Por Emannuel e Marília

[essa resenha contém spoilers]

“Nós podemos tomar decisões que nos afastem do ponto de
partida, mas não podemos mudar esse ponto de partida.”
– Gyasi, em entrevista a O Globo.

Marília: “O caminho de casa” é o romance de estreia de Yaa Gyasi, escritora ganense-americana. Publicado em 2016 (no Brasil, em 2018, pela Rocco), o romance conta a saga de uma família africana – originária de um território onde hoje está Gana – ao longo de várias gerações. Duas meio-irmãs que nunca se conheceram têm destinos diferentes: uma se casa com um britânico comerciante de escravizados e a outra acaba vendida como escrava, trabalhando nos Estados Unidos. Daí, temos duas linhas temporais com seus descendentes e os mais variados (mas não necessariamente inesperados) destinos. Um romance geracional, o livro aproxima leitores da história, humanizando e individualizando aquilo que estudamos ou mesmo só ouvimos falar de forma coletiva, abstrata ou dispersa. Bastante elogiado pela crítica, a obra levou o prêmio 2017 PEN/Hemingway de melhor estreia literária.

Emannuel: Cada capítulo é praticamente independente, alternando entre as duas linhagens dessa família e pulando de geração em geração. A estrutura, na maior parte da leitura, lembra mais uma série de contos, organizados de forma cronológica. E, ao longo dos século abarcados dessa forma, vemos alguns elementos históricos que não poderiam deixar de ser abordados, como a Guerra do Banquinho Dourado, na qual os britânicos tentaram se apossar do símbolo sagrado do Império Ashanti, ou a Décima Terceira Emenda da Constituição dos EUA, que permitiu que a escravidão continuasse no país ao transferir os trabalhos forçados para os detentos (o que causou um imenso aprisionamento de homens negros, que continua até hoje, e que virou documentário na Netflix). Talvez por essa natureza de narrativas mais contidas em cada capítulo, é inevitável que alguns capítulos agradem mais do que outros. Para mim, por exemplo, o capítulo que inicia o livro, sobre Effia, e o que abre a segunda parte, sobre H, são alguns dos destaques.

Marilia: Embora sejam quase independentes, você ainda consegue estabelecer paralelos e continuações entre eles. A narrativa te dá elementos para lembrar quem é aquela pessoa – afinal, é um pouco normal se perder depois de vários nomes e eventos. E é interessante buscar as comparações entre as personagens de cada geração, procurando interações e enlaces entre os dois galhos genealógicos. A comparação se dá principalmente pelo contraste – por exemplo, uma pessoa está tentando fugir da plantation de algodão, enquanto outra é livre, tem uma posição social mais confortável, mas lida com outras questões pessoais. No entanto, há similaridade entre as situações por meio de outros temas, que atravessam tempo e espaço. Por exemplo, a posição de uma pessoa “mestiça” na sociedade. Qual a posição social de um filho de uma mulher negra e um vendedor de escravos branco? Ele é bem recebido por todos na sociedade onde vive? E uma pessoa mestiça que consegue se passar por branca, como fica? E quando ela se casa com uma pessoa negra? O romance traz muita coisa pra se pensar que não são fáceis de digerir… Numa nota pessoal, a vida tem um pouco de coincidências curiosas. Li o capítulo de H. quando estava passando por Baltimore, a caminho de Nova York [bem internacional ela, rs] e depois li sobre o limite Manhattan-Harlem e os bares de jazz do bairro estando na cidade. Foi uma experiência incrível tentar pensar naqueles lugares em outros tempos. Aliás, fiquei com vontade de ver todos os locais descritos, fazer os trajetos do livro, especialmente ver o Castelo da Costa do Cabo, embora sua descrição – no começo e ao final – tenha me feito muito mal. Foi uma passagem particularmente intensa. Li que Yaa Gyasi levou sete anos para escrever a obra e não me surpreende: tem muitos aspectos históricos envolvidos, e me parece que ela pesquisou a fundo. É uma obra sobre herança histórica, consequências coletivas e individuais, e impactos diferentes em lugares e tempos diferentes. É foda ver isso de uma vez, sabe, estabelecendo conexões entre situações muito reais, embora fictícias. Um texto poderoso. Demorei um pouco para entrar no ritmo, mas depois não consegui soltar mais.

[pare aqui se você não quer saber como o livro termina]

Emannuel: Realmente, existe uma pesquisa impressionante por trás do livro. Dá para ver não só que demorou muito tempo para ser escrito, como também que foi feito por uma pessoa que se dedica aos detalhes de pesquisa necessários para um romance histórico, mas que muitos não conseguem fazer, ou ao menos não fazem bem. Esse último capítulo, no entanto, me deixou um pouco dividido, como o capítulo do Yaw, pai da Marjorie, já havia deixado. Ele é muito importante para pensar como toda essa trajetória histórica chegou até o presente, como o nosso tempo é o resultado de todo um longo processo. Gyasi consegue não só abarcar o dobro do período de romances como “Cem Anos de Solidão”, mas além disso acompanhar dois continentes com realidades distintas. E esse momento final é realmente bem forte. Mas, comparado com tudo que veio antes, me pareceu meio apressado. Em diversos momentos desse capítulo, os personagens meio que fazem uma exposição do projeto do próprio romance como um todo. Sem falar que a aproximação entre Marcus e Marjorie acontece de uma hora para outra, e deixa de lados os personagens em si para ser mais uma conclusão simbólica daquelas duas trajetórias familiares. De certa forma, isso foi algo que senti em outros capítulos também, com a trajetória dos personagens dando umas guinadas enormes para poderem se adaptar ao arco geral da narrativa (e ignorando quase todos os irmãos que não ganharam capítulos próprios, por exemplo). Sem falar que muitas vezes parece que, para a autora, só podemos ter empatia pelo sofrimento dos personagens, como se suas vidas internas não fossem mais ricas do que isso. Só acompanhamos Esi quando ela é vendida, e Sonny apenas durante seu período como viciado, por exemplo. Era impossível ignorar isso dentro do contexto do romance, para não apresentar uma versão higienizada e irreal da escravidão e do colonialismo, por exemplo, e a autora consegue fazer isso bem. Como disse acima, o capítulo sobre H foi um dos meus preferidos, e também um dos mais tristes do livro, ao meu ver. Assim como a busca desesperada de Kojo por Anna.

Marília: Também achei os capítulos finais apressados. Por outro lado, não sei se dava para seguir no mesmo ritmo… Em algum momento, as narrativas iam se encontrar, afinal o livro se chama “O caminho de casa”. Pode não parecer à primeira vista, mas exista uma proposta que vai se tornando clara. É um livro sobre retomar/reencontrar as raízes, e nada mais natural do que ter que abandonar certos personagens ou certos aspectos da vida dos personagens para se dedicar àqueles que fazem sentido dentro dessa proposta. A ideia é fazer uma volta, portanto, faz sentido ter guinadas. A busca de Kojo foi difícil de ler, porque emoções! Fiz pausas para respirar e chorar um pouquinho. A relação de Marjorie com a avó e com a própria Gana é muito bem feita, bonita mesmo. A história de Abena também é muito tocante e, ao mesmo tempo, dá muita raiva. E queria saber quem é a pessoa que ela encontra na cidade e que vê seu pai (dado como morto, não podemos esquecer) nela. Gostei mais da parte que se passa nos Estados Unidos, porque conseguia identificar os momentos históricos – é uma história com a qual estamos um pouco mais familiarizados. O que não significa que a linha do tempo ganense não seja bem feita – pelo contrário, dá imergir muito nas histórias (e aprender um pouco sobre a própria história do país). O livro foi uma das minhas leituras favoritas até agora e uma boa surpresa. Não tem uma estrutura tão semelhante à de “Cem anos”, porém a comparação pela proposta vale e acho que também pode se tornar um clássico.

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