Obrigação da atualização

Por Marília

Tenho costume de acompanhar essa temporada de premiações, que começa do final do ano e termina só agora em fevereiro. Primeiro porque sou uma grande fã do tapete vermelho, daquelas que procura fotos de todos os vestidos e maquiagens para comentar os mais interessantes. Segundo porque gosto de retomar o que foi lançado, o que bombou no ano, o que flopou, o que deveria ser indicado e não foi, o que foi nomeado (e até recebeu prêmios) sem muitos motivos, e por aí vai. Discutir as indicações é também parte da diversão, claro. Esse tipo de entretenimento me parece mais divertido se coletivo, compartilhado.

Porém, desde 2015, a animação para premiações está menor. Se antes espaço de ousadia e novidades, o Red Carpet ficou cada vez mais entediante. Não sei se por medo de críticas ou simplesmente para garantir a presença na lista dos “mais bem vestidos”, atores e atrizes têm optado por escolhas seguras de figurino e maquiagem. Encontrar seu próprio estilo é parte do processo. Repetir um tipo de look não significa que não há espaço para inovar. Tampouco é uma obrigação das atrizes – porque vestuário é cobrado delas, não dos homens – sempre estar perfeita, bem-vestida e ousada
.
Ressalvas: apesar de a moda faz parte das premiações, as entrevistas no tapete vermelho não devem se ater apenas aos vestidos. O movimento de Ask Her More já vem demandando isso nos últimos anos. Nem todo evento precisa ter sua Bjork ou sua Gaga, embora elas garantam repercussão nas mídias. Além disso, programas de moda que descascam completamente celebridades e suas roupas não fazem mais sentido pra mim. O comentário sobre as roupas (de homens e mulheres) precisa vir com mais conteúdo – o que não acontece. Esse estilo de crítico é repetitivo, chato e, para mim, um dos grandes culpados pela opção de segurança nas roupas. Ainda assim, um riscozinho aqui e ali faz parte do entretenimento e sinto falta de roupas que me deixavam surpresa e boquiaberta.

Deixando a moda de lado, a verdade é que não tenho conseguido acompanhar lançamentos como antes. É tanta coisa rolando ao mesmo tempo: filmes de todos os gêneros, séries novas, livros, diferentes serviços de stream com as mais diversas produções, remakes, spin-offs, prequels, crossovers… Ufa. E, nesse meio tempo, também ficar de olho nos acontecimentos nacionais e internacionais: reviravoltas políticas brasileiras, eleições americanas, crise na/da União Europeia, assassinato de Kim Jong-nam, guerra na Síria, frequentes violações de direitos humanos, você escolhe o tema. E, ainda, ler colunas com opiniões interessantes, polêmicas, controversas e por vezes até idiotas sobre tudo isso (do rol das notícias políticas às culturais).

Ninguém é obrigado a fazer nada disso. Mas parece fazer parte do mundo contemporâneo estar por dentro de absolutamente tudo, não necessariamente de maneira aprofundada. Mesmo porque quem dá conta de analisar tudo profundamente? Quem tem tempo pra isso?

Nessa preguiça recente das premiações, o Oscar tem sido uma exceção porque é o que mais acaba envolvendo a coletividade: apostas entre amigos, conjecturas coletivas, opiniões divergentes. Se antes conseguia acompanhar esses eventos com os amigos, seja online ou off-line, hoje, isso parece cada vez mais difícil. Todo mundo sem tempo.

Há quem diga que não é uma questão de tempo, é uma questão de prioridade. Será mesmo? Ver um filme ou ler aquele texto da pós? Matar a temporada da nova série da Netflix ou fazer a marmita da semana? Se preparar para aquela reunião importante ou ler o último volume de Guerra dos Tronos? Como organiza a vida? Dá para se entreter, descansar, estudar, trabalhar, fazer exercícios, se alimentar corretamente, cuidar das responsabilidades domésticas, se dedicar às pessoas queridas, tomar a quantia adequada de vitamina D diariamente, fazer exames médicos com regularidade, dormir uma quantidade razoável de horas?

Uma amiga indicou um texto da Mirian Goldenberg em que ela pergunta se somos mesmo os donos do nosso tempo. Mirian parece colocar o problema em querermos agradar os outros. Claramente, meu problema é agradar a mim mesma. Me sinto culpada se não dou conta de tudo o que eu mesma me proponho a fazer. Priorizar é escolher e escolher é difícil (indicador de millennial, talvez).

Também é cansativo, dá preguiça mesmo. Às vezes, o negócio não engata: seja texto da faculdade, material de reunião, louça na pia, série ou podcast. Quando se torna obrigação, a diversão sai pela janela. O medo do spoiler na conversa de bar, de parecer alheio ou ignorante, de não ter assunto, é normal. Adoro as conversas sobre as premiações, mas o melhor é fazer isso levemente, sem a obrigação de se manter atualizado.

Nem sempre estamos no pique para um episódio de Black Mirror ou para o último filme iraniano. Priorizar pode ser escolher o que te faz bem naquele momento também. Que pode ser, inclusive, ficar vendo trechos do novo filme da vida da Britney (em inglês). Sem culpa, sem crise. A vida é muito curta para se arrepender de não estar 100% conectado e inteirado.

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